De Curitiba
Mais da metade das mulheres brasileiras – 52% para ser mais exato – sofrem algum tipo de mau trato físico ou psicológico por parte de seus companheiros, enquanto a média mundial fica em torno de 20%. A afirmação é do pedagogo espanhol Antonio Saez Crespo, professor titular de Saúde Pública da Universidade Complutense de Madri.
Saez esteve em Curitiba participando do seminário sobre prevenção da violência contra mulheres e crianças, organizado pela professora de psicologia da Universidade Federal do Paraná (UFPR) Maria Luiza D’Ávila Pereira e que aconteceu no departamento de Psicologia da UFPR, na praça Santos Andrade.
Saez acredita que é necessário formar um corpo interdisciplinar integrado por profissionais de psicologia, sociologia, medicina, pedagogia e agentes de segurança capazes de lidar com o problema da violência contra crianças e mulheres, que atinge o mundo todo. Segundo o professor, nos países latino-americanos, no entanto, as estatísticas sobre o problema são bem maiores do que a média mundial, e o Brasil ocupa um lugar de lamentável destaque.
‘‘Na América Latina o problema é sócio-econômico-cultural e é maior até do que o de países africanos’’, revelou Saez concluindo: ‘‘Em 1997, uma pesquisa demonstrou que 41% dos homens da Nicarágua que agrediam suas mulheres se orgulhavam disso.’’
Na opinião de Antonio Saez, o agressor, tanto de mulheres quanto de crianças, é um enfermo social e precisa de tratamento psicológico integrado, não de prisão. Ele diz também que esse tratamento deve-se estender à família dos envolvidos. No caso da criança, há uma grande incidência de mães agressoras, mais do que de pais, principalmente as jovens entre 20 e 30 anos, que têm o primeiro filho, devido à inexperiência.
‘‘A agressão contra a criança não se dá apenas fisicamente. Dizer ‘eu não gosto de você’, ou ‘você não serve para nada’, é uma agressão psicológica muito grande. Essa criança crescerá com pouca auto-estima e provavelmente também se tornará um agressor’’, afirma Saez.
Outra forma particular de agressão à infância é o abuso sexual que, segundo o médico espanhol, é mais comum do que se imagina. Ele diz que a maioria dos casos envolve pais, parentes e pessoas próximas à criança, como professores, enfermeiros e amigos da família. ‘‘Geralmente são pessoas inseguras consigo mesmas que se aproveitam da fragilidade infantil para impor-se sexualmente, muitas vezes sem contato físico’’, disse.
Antonio Saez afirmou que ficou impressionado com o interesse demonstrado pelo tema em Curitiba e se dispôs a voltar no ano que vem, com um seminário de caráter internacional. ‘‘Curitiba tem condições de formar o primeiro curso interdisciplinar do mundo sobre violência contra mulheres e crianças e se tornar referência mundial’’, elogiou.

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