Mulher bate para se defender
As mudanças no comportamento de homens e mulheres percebido pelo psiquiatra Cuschnir no dia-a-dia do consultório e no Iden ainda não são perceptíveis nas estatísticas policiais. ''O homem se sente constrangido de procurar o plantão policial para denunciar uma mulher por agressão'', confirma a delegada Márcia Salgado, dirigente do setor técnico de apoio às Delegacias de Defesa da Mulher (DDM). ''Alguns vão às DDMs porque preferem relatar o caso para uma delegada a procurar um delegado.''
As DDMs não calculam o porcentual de queixas feitas por homens entre as milhares de denúncias de mulheres, mas, segundo a delegada, o índice não chega a 1%. ''Eu trabalhei na periferia de 1988 a 2001 e me lembro de ter atendido, pessoalmente, apenas três casos assim''.
Segundo Márcia, na grande maioria das vezes em que a mulher bate, ela está revidando uma agressão do homem. ''Como a mulher sabe que não tem a mesma força física, é difícil se sentir encorajada a revidar. Por isso, quase sempre arremessa objetos'', afirma a policial.
Para Cuschnir, a agressão faz parte de um contexto maior de violência conjugal. ''A mulher agride por quê? Porque foi agredida antes? A agressão dele não pode ser reação a uma agressão dela? É aquela velha história do que veio primeiro, se foi o ovo, ou a galinha'', analisa. ''Muitas vezes, o casal não tem consciência de que está se agredindo. Sempre há coisas que um deseja e o outro não pode suprir.'' Após o revide, de acordo com o psiquiatra, a traição masculina é o segundo motivo mais frequente de agressão.
No Pró-Mulher, o objetivo é justamente rever a relação de vítima e agressor. O locutor de rádio, por exemplo, assume que seu comportamento ajudou a provocar as reações da mulher. ''Gosto das coisas no lugar, gosto de horário. Ela não, e eu pegava no pé dela.'' Ele afirma ter ''perdido a cabeça'' apenas duas vezes. Em uma das ocasiões, empurrou a mulher; em outra, deu-lhe um tapa. ''Me arrependo muito, mas não deu para segurar'', alega.
No Pró-Mulher, o locutor aprendeu que os conceitos de certo e errado são relativos e paciência é fundamental para os casais superarem problemas como o que ele viveu. ''A planta precisa de água. Experimenta jogar água quente nela para ver o que acontece. No casamento, é assim também. Tem de segurar o impulso e agir de cabeça fria.'' (L.D./AE)





