Maigue Gueths
De Curitiba
Toda sexta-feira à tarde, a professora Margarida de Jesus Muniz sai de sua casa, na ilha de Ararapira, no litoral paranaenses, quase na divisa de São Paulo, percorre 40 quilômetros durante sete horas à pé ou de bicicleta até a praia de Superagui. Ali ela dorme na casa da sogra. No dia seguinte, junto com outras duas professoras, encara mais três horas de barco até o município de Guaraqueçaba. Margarida está enfrentando esta rotina desde agosto e vai continuá-la até o final de 2001, quando conseguirá se formar no Curso Normal à Distância (CND), do qual participa em Guaraqueçaba, junto com mais 69 alunos, divididos em duas turmas.
‘‘Eu sempre quis estudar e sempre foi difícil. Eu sofro bastante na praia, já cheguei a cair da bicicleta, mas não está sendo em vão, porque eu penso muito no futuro dos meus filhos e se eu deixar de trabalhar e de ensinar a eles, vai fazer falta no futuro’’, diz. Há 16 anos Margarida é professora da 1ª à 4ª série do ensino fundamental (antigo 1º grau) em Ararapira. Hoje ela dá aula para apenas 6 crianças, duas das quais filhos dela. Além destes, ela tem mais duas meninas, ambas deficientes visuais, as quais também tenta ensinar.
Entre os 12 mil professores leigos que participam do Normal à Distância são muitas as histórias parecidas com a de Margarida. Em Mangueirinha, por exemplo, duas índias da tribo Kaigang participam do curso. ‘‘Nós temos que caminhar para o progresso ou vamos acabar perdendo o emprego’’, diz Salete Chagas Moraes, que há 12 anos dá aula na pré-escola da tribo. Já Eloy Cretã acha que a sua formação no curso normal será ‘‘importante para a vida de todos’’.
Outro aluno que se destaca é Waldemar Sbalcheiro, que dá aula há dez anos no assentamento dos sem-terra no município de Mangueirinha. Waldemar já foi motorista e vendedor. Há dez anos teve que abandonar sua casa por causa da construção de uma barragem e foi morar no assentamento, onde acabou assumindo a função de professor. ‘‘Cada ano eu gosto mais do que faço’’, conta.
No caso de Margarida, a Prefeitura de Guaraqueçaba é que está arcando com todos os custos do curso. Já em Mangueirinha são os próprios professores que pagam o curso.

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