Lúcio Horta
A desempregada Ivone Pereira Lopes procurou ontem a Folha para denunciar que está havendo comercialização de lotes no assentamento São Jorge, que fica na zona norte de Londrina. A área pertence à Companhia de Habitação (Cohab) e há mais de um ano foi transformada em assentamento. Atualmente abriga 786 famílias, parte delas transferida em agosto do ano passado da favela do Jardim Paraíso, também na zona norte.
Segundo Ivone, um dos casos de comercialização seria do desempregado Pedro Marcondes, 38 anos, casado e pai de dois filhos. Há quatro meses, ele perdeu o emprego em Ibiporã, veio para Londrina e comprou por R$ 1 mil a data 3 da quadra 1. Marcondes confirmou a denúncia. ‘‘Comprei de um tal de Ademir. O terreno já tinha o alicerce pronto e eu terminei de levantar a casa. Mas o documento, o rapaz ficou de me trazer’’, disse. Questionado se tem receio de perder o lote, ele respondeu: ‘‘Paguei caro e não posso perder. Vou lutar para não sair daqui’’.
Ivone garantiu que há outros casos parecidos no assentamento. A denúncia veio acompanhada de outra reclamação que envolve a Cohab: o órgão teria prometido ceder um lote no assentamento São Jorge e não cumpriu o acordado. Ela disse que fazia parte do grupo de famílias que morava na invasão do Jardim Paraíso. A maioria dos invasores, ela recorda, ganhou uma senha e depois conseguiu o lote no São Jorge.
O problema é que Ivone mudou-se para Curitiba e a senha - correspondente à data 5 da quadra 2 - ficou em nome do pai dela, que já tem uma casa e mora no Paraíso. Ela disse que de lá para cá, o pai cuidou do lote para que fosse ocupado quando a filha voltasse para Londrina. Há quatro meses, afirmou Ivone, o pai foi chamado até a Cohab e a senha foi tomada dele. ‘‘Mas disseram que assim que eu voltasse teria o lote garantido. Disseram isso e meu pai não ia mentir’’, afirmou.
Semana passada, Ivone deixou o emprego de zeladora em Curitiba e voltou com a filha de seis anos. Na terça-feira, procurou a Cohab e foi informada que não tinha mais direito ao lote. Além disso, descobriu que no último domingo o terreno passou a ser ocupado por outra família.
Ivone afirmou que vai tentar resolver o problema diretamente na prefeitura. Se não conseguir, garantiu que entrará na Justiça. Ela entende que tem direito ao lote no São Jorge. ‘‘Que me arrumem outro lote e o documento já. Aqui ninguém tem documento’’, disse ela, que, por enquanto, está morando com o pai.
O lote 5 da quadra 2 passou a ser ocupado por Quitéria Ramos da Silva, 64 anos, que está morando com um filho e dois netos. Com a senha na mão, informou que foi a própria Cohab quem cedeu o terreno. ‘‘Faz um ano que a gente estava batalhando, sem ter onde morar. Aí disseram que a data estava vazia e colocaram a gente aqui’’.

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