Muito barulho por nada
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 23 de abril de 2002
Mauricio Della Barba 
Gerson estava em casa sentado no sofá, junto com a mulher, assistindo TV. Funcionário público aposentado, Gerson sempre foi uma pessoa calma. Não gritava, não brigava, apenas dava alguns sermões em seus filhos ou indiretas cínicas em quem lhe provocava. Morava em um bom apartamento, de três quartos, no centro de Londrina. Da janela do quarto de TV podia muito bem apreciar o cemitério e a Avenida JK.
Naquele dia havia chegado cedo em casa, pois queria jantar para depois assistir a um filme de bang-bang seus preferidos na televisão. Tomou banho, colocou o pijama, tomou a sopa e foi para a frente do aparelho. Acomodou-se confortavelmente no sofá, com uma almofada entre os joelhos, e apoderou-se do controle remoto. Na hora, os filhos abandonaram o quarto e foram dormir.
O filme começou e Gerson pediu silêncio para a esposa, que estranhou a solicitação, já que estava quieta em seu canto fazendo tricô. O enredo do filme se tornou emocionante. Tiros e mais tiros, cavalos correndo, gritos das donzelas, mocinhos e bandidos na luta. Mesmo nos intervalos, ele não saía dali nem para pegar um copo dágua: pedia para a mulher trazer.
O bang-bang estava quente. Em uma certa altura, quando o bandido estava prestes a revelar os detalhes do assalto ao banco para sua amada, uma moto, com aquele barulho irritante do escapamento aberto, cruzou a avenida JK em alta velocidade. Não foi possível ouvir uma palavra. Gerson apertou a almofada e, olhando para a mulher ao lado, apenas bufou. O mesmo fato ocorreu por mais umas três vezes.
O filme chegava ao fim. O xerife de Hampshire City preparava o duelo final que acabaria com os bandidos. Gerson aumentou o volume da TV e sentou na ponta do sofá. A conversa entre mocinho e bandido era o estopim do tiroteio. Nesta hora, um carro com o som em alto volume, feito um trio elétrico, parou na avenida, bem abaixo de sua janela. Gerson, que era calmo, teve seu momento único. A raiva, instintivamente, tomou-lhe conta. Imaginando ser um caubói, com sua cartucheira empunhada, viu-se apoiando no parapeito e atirando certeiramente nos seis alto-falantes traseiros do carro.
A sensação de alívio daquela cena imaginária chegou aos seus ouvidos e fez com que se acalmasse. Lentamente, Gerson voltou à realidade, abriu os olhos, respirou fundo e pôde ouvir o final do filme. Sem o barulho.


