'Muitas vezes você tem de perder para ganhar'
''Eu não precisava me isolar literalmente para ficar só. Conseguia me isolar em qualquer situação, em qualquer lugar. Podia estar numa festa com as pessoas, mas ficava no meu mundo, vendo aquilo pela janela'', diz a engenheira Maria, 36, que prefere não revelar a verdadeira identidade.
Hoje ela se considera recuperada. Vive com o marido na Alemanha, onde ambos trabalham na área de tecnologia. Sua carreira, no entanto, chegou a ser ameaçada pela instabilidade emocional. A ponto de Maria ter sofrido da Síndrome do Escrivão, um transtorno que impede o indivíduo de escrever em situações de pressão psicológica (como provas e concursos).
Ela conta que, durante a faculdade, dedicava-se muito ao estudos. Chegava a ajudar os colegas, emprestando cadernos e anotações. Mas se negava a falar em público e, principalmente, tirava notas péssimas nas avaliações escritas. ''Ninguém entendia como eu conseguia ir tão mal. Sempre nadava e morria na praia, e isso começou a me cansar. Aos poucos, fui me tornando uma pessoa agressiva'', diz, em entrevista concedida por e-mail à reportagem.
O problema, como é de praxe, começou bem antes. Surgiu na adolescência, quando o pai, militar, foi transferido para outra cidade e não pôde levar o resto da família. ''Ele sempre falava que eu tinha de tomar conta da minha mãe e do meu irmão, o que me sufocava ainda mais. Imagine você se sentir abandonada, mas tendo que assumir responsabilidades?''
Resumindo: Maria, que já era tímida, passou a beber e se fechar ainda mais em seu mundo. Até que, correndo o risco de ser jubilada na faculdade, resolveu procurar ajuda. Primeiro, com um psiquiatra que a mantinha a base de remédios. Não funcionou. Depois, com uma psicóloga que, segundo ela, ''comprou sua briga''.
''Entendi, com a ajuda dela, que muitas vezes você tem de perder para ganhar. Se você é mais sensível que os outros, sente, chore e vá a luta. Mas não esconda o que está sentindo, não faça muros com isso'', explica.
Maria concluiu os estudos, conseguiu um emprego e enfrentou sua prova de fogo: casar-se e morar no exterior. ''Foi aí que percebi como eu tinha crescido'', avalia a engenheira, que garante não ter recaídas. ''O importante é ter paciência com si mesma. A máquina humana é fenomenal, mas de vez em quando precisa de manutenção'', conclui. (O.G.)





