As mudanças de comportamento entre mulheres e jovens da zona rural começam a refletir em novas relações de produção nas propriedades agrícolas brasileiras, caracterizadas até então pelo trabalho de todos os membros da família em torno da mesma atividade. A conclusão foi levantada pela antropóloga Maria José Carneiro, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, que esteve ontem em Londrina participando de um encontro sobre ‘‘Ocupações Rurais Não-Agrícolas’’. O evento foi promovido pelo Instituto Interamericano de Cooperativas Agrícolas e se encerrou ontem, no Iapar.
Durante sua palestra, a pesquisadora utilizou material recolhido em pesquisas no oeste de Santa Catarina, na colônia italiana do Rio Grande do Sul e na região serrana do Rio de Janeiro. Nestes lugares, ela notou, a partir da década de 90, algumas rupturas na estrutura tradicional de produção rural. ‘‘Os jovens e as mulheres não aceitam mais a condição de subordinados ao trabalho do pai, também querem se profissionalizar e anseiam por ter renda própria e independência’’, afirmou.
Impelidos por esta nova necessidade, partem em busca de formação e capacitação, trazendo para o campo outras possibilidades de aproveitamento da propriedade rural. ‘‘Para os mais novos, permanecer no campo se tornou uma opção profissional, não se trata mais de uma imposição familiar’’, acrescenta.
Entre as mulheres, Maria José notou uma resistência grande em ocupar apenas o papel de esposa. ‘‘Elas querem ser independentes, rejeitam a subordinação total ao marido. As moças, principalmente, não querem reproduzir a vida das mães, casando e trabalhando para o esposo. Toda esta discussão sobre o papel da mulher na sociedade já chegou ao campo’’, ressaltou.
A implantação de políticas públicas que atendam a esses novos anseios pode impedir o êxodo rural, na medida em que estimulará a permanência nas propriedades. A antropóloga informa que o Brasil começa a enfrentar o problema de masculinização e envelhecimento no meio rural, que já é bastante grave na Europa. ‘‘Como as mulheres jovens vão embora, os rapazes acabam sem oportunidade de casamento, diminuindo o índice de crescimento da população’’.
Para ela, todas essas mudanças foram causadas pelo maior contato com a zona urbana. Além da melhoria nos sistema rodoviário e de transportes, a presença do rádio e da televisão também contribuem para a adoção de comportamentos diferenciados e o aparecimento de novas necessidades.

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