Mudança em lâmpada aumenta o consumo
As lâmpadas das casas de mais de 80 milhões de brasileiros estão queimando 50% mais rápido do que queimavam há dois anos. Isso quer dizer que a população está consumindo o dobro de lâmpadas e, além disso, utilizando mais eletricidade para mantê-las acesas. O aumento adicional no consumo trouxe um gasto de energia para o Brasil superior à economia obtida com todo o horário de verão do ano passado. Estas mudanças foram provocadas por uma iniciativa unilateral das fabricas de lâmpadas. Em 1997, depois de efetuarem mudanças junto à Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABTN) sem comunicarem os órgãos públicos, elas começaram a colocar no mercado lâmpadas incandescentes de 120 volts, em substituição às de 127 volts que eram comercializadas até então.
A alteração na voltagem passou quase desapercebida para os consumidores, mas foi exaustivamente investigada pelos pesquisadores César José Pagan e Gilberto Januzzi da Faculdade de Engenharia Elétrica da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Eles mantiveram acesas, por meses seguidos e nas mesmas condições de voltagem encontradas na maioria das residências brasileiras, lâmpadas produzidas por diferentes fabricantes. E provaram que as lâmpadas, antes projetadas para durar cerca de mil horas, agora têm uma vida útil de apenas 452 horas.
Isso se deve à diferença entre a voltagem da rede e a da lâmpada. No Brasil, a rede elétrica de mais da metade das ligações residenciais é fornecida com 127 volts (veja mapa). A população acredita que a rede elétrica chega às casas com 110 ou 220 volts. Na verdade não há ligações de 110 volts, mas apenas de 115 ou 127 volts, explica Pagan. Nas regiões Sudeste e Norte e nos estados do Paraná, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, parte do Rio Grande do Sul e Bahia predominam as redes de 127 para as ligações residenciais. Isso representa mais de 80 milhões de consumidores de lâmpadas com esta voltagem, afirma.
Quando a tensão da rede é maior que a tensão da lâmpada, elas brilham um pouco mais (leia texto nesta página). Em compensação, têm o tempo de vida útil reduzido e gastam mais energia. Segundo cálculos dos pesquisadores da Unicamp, o consumo extra provocado pela mudança na voltagem das lâmpadas corresponde a mais de 250 megawatts anuais. Para construir uma usina com capacidade de gerar esta energia, o Brasil teria que investir cerca de meio bilhão de reais, quantifica Januzzi. Como a iluminação residencial é utilizada nos chamados horários de pico, este valor equivale a um aumento de 3% a 5% de consumo no período. Para se ter uma idéia do que isso representa, basta saber que o horário de verão é instituído para garantir uma economia de 1% nos horários de pico, compara.
Estas projeções, segundo Pagan, ainda são conservadoras pois referem-se apenas aos consumidores do segmento residencial. O segmento comercial, ou seja, lojas e escritórios que utilizam lâmpadas incandescentes não foram levados em conta por nós. Embora eles representem a terça parte dos consumidores, são poucos os que utilizam iluminação durante a noite, explica.
Poucos países no mundo, além do Brasil, utilizam a tensão de 127 volts. A mais generalizada em outros lugares da América Latina, Estados Unidos e Canadá é a tensão de 120 volts. O Japão utiliza 100 ou 110 volts. Em todos estes países, a tensão da lâmpada é maior que a da rede. Os Estados Unidos comercializam lâmpadas de 125 a 130 volts e o Japão de 110 a 120 volts. A lâmpada com tensão maior que a da rede, consume menos energia e tem vida útil maior, explica Pagan. Por isso, segundo ele, é um absurdo que um país como Brasil, que ainda luta para equilibrar seu déficit energético, se dê ao luxo de um desperdício deste tamanho.QUEIMOU!Além de consumir mais energia, lâmpadas estão queimando 50% mais rápido do que queimavam há dois anosPaulo San Martin
e Alessandra Campos
Especial para a Folha





