Mudança de sexo
PUBLICAÇÃO
sábado, 11 de outubro de 1997
Adriana De Cunto Londrina 
Paulo WolfgangTem que ter cabeça boa para aceitar porque há uma mudança radical na vida
Edson Bezerra da Silva, presidente do GHLMônica Matarazzo tem atributos capazes de despertar a inveja de muitas mulheres. Corpo escultural, rosto bonito de garota de 24 anos e namorado fixo em São Paulo. Tudo seria perfeito se não fosse um detalhe: Mônica nasceu Robson Rogério Santana e agora batalha para conseguir dinheiro e fazer uma cirurgia de transgenitalização - operação em que os homens ganham uma vagina ou as mulheres passam a ter pênis. A realização do sonho dela começou a ficar mais fácil desde o dia 19 de setembro, quando o Conselho Federal de Medicina autorizou - em caráter experimental -, a realização das cirurgias para mudança de sexo em hospitais públicos e universitários do Brasil.
A Resolução do CFM foi recebida com euforia pelos homossexuais brasileiros, que a consideraram um avanço para a comunidade, mesmo levando em conta o rigor das regras definidas pelo Conselho para os candidatos à cirurgia: ela só pode ser feita em pacientes com mais de 21 anos e em casos de transexualismo, doença definida pela psiquiatria e caracterizada pela não-aceitação dos órgãos genitais. Antes de se submeter à cirurgia, o paciente terá que ser acompanhado, durante dois anos, por uma equipe multidisciplinar que autorizará o procedimento.
O secretário-geral do Grupo Dignidade, de Curitiba, Sidney Eduardo Hernandez, 21 anos, conta que na semana passada três pessoas procuraram a entidade para pedir informação sobre a Resolução e apoio para se candidatarem ao programa. É um grande avanço, uma grande vitória para os homossexuais transexuais, comenta. Na opinião dele, o prazo de dois anos para acompanhamento com junta médica e psicólogos pode parecer longo, mas é importante para as pessoas que não têm certeza sobre a cirurgia. A cirurgia é irreversível, lembra.
Dorico da SilvaEuforiaMônica Matarazzo, 24 anos, rosto bonito e corpo escultural, sonha com a cirurgia: Ouvi dizer que são de 60 a 90 dias de repouso. Mas o que são três meses diante do resto da vida de glória?
Hoje, Edson Bezerra da Silva, 37 anos, presidente do Grupo de Homossexuais Londrinense (GHL), agradece ter sido reprovado por uma junta médica quando se candidatava a uma cirurgia de transgenitalização em Barcelona, Espanha, há alguns anos. Se eu tivesse feito, teria me arrependido, confessa. Tem que ter cabeça boa para aceitar porque há uma mudança radical na vida.
Edson da Silva tem esperança de que a Resolução do CFM abra espaço para novas conquistas dos homossexuais, como a aprovação do Projeto de Lei da deputada federal Marta Suplicy (PT) liberando a união civil entre pessoas do mesmo sexo. O Brasil não deveria estar tão atrasado em relação a outros países nestas questões, comenta.
O presidente do GHL diz que três travestis londrinenses já fizeram a cirurgia. Dois deles estão morando na Europa e um, que residia na Itália, faleceu recentemente.
Apesar da liberação para que os hospitais públicos e universitários façam a cirurgia, Mônica prefere buscar o serviço no exterior. Será que aqui no Brasil a cirurgia terá os resultados positivos da operação feita na Europa? Segundo ela, em Londres, a cirurgia custa R$ 16 mil. Mônica já tem uma parte do dinheiro. O resto, pretende conseguir fazendo programas na Itália, onde já morou por vários anos. Trabalhando durante quatro ou cinco meses na Europa a gente consegue arrumar este dinheiro, comenta.
Atualmente, Mônica mora no conjunto Violin (zona norte) e ganha a vida fazendo programas através de uma agência da Cidade. Na opinião dela, a triagem com psicólogos e médicos antes da cirurgia é um procedimento importante. A operação é necessária para quem, como eu, se veste, se comporta e se sente mulher o tempo todo. Não para os homens que só se vestem de mulher, mas não têm a alma de mulher.
Mônica está consciente de que a cirurgia é delicada e o período pós-operatório também é bastante difícil. Ouvi dizer que são de 60 a 90 dias de repouso. Mas o que são três meses diante do resto da vida de glória?.
Missmy também quer fazer a cirurgia de transgenitalização. Ela acredita que assim poderia ter uma convivência melhor com o namorado e mesmo com a sociedade. Já me sinto mulher 24 horas por dia. Meu namorado não reclama, mas com a operação, acho que iria melhorar ainda mais, acredita.
Ela trabalha como cabeleireira em um salão no jardim Bandeirantes (zona oeste) - a maioria das suas clientes são mulheres. Tem que ficar claro que existem os transformistas, os travestis e os transexuais. Na minha opinião, esta Lei deve beneficiar os transexuais, categoria à qual Missmy - que não revela o verdadeiro nome - diz pertencer.
A cabeleireira, de 28 anos, explica que o transexual não apenas se veste como mulher. Ele não aceita o corpo masculino. Missmy morou na Itália e em breve pretende voltar para se aperfeiçoar na profissão de cabeleireira e maquiadora. Eu gostaria de fazer a cirurgia. Mas desde que os hospitais universitários tenham pessoas capacitadas e equipamentos.


