Mudança de Lixão gera polêmica
AMA pede dois anos para transferir aterro

Lúcio Horta
Londrina


Milton DóriaAlertaFernando Fernandes, professor da UEL: "A situação hoje do aterro sanitário é bastante difícil"Terminou em novembro o prazo previsto em lei para que o Aterro Sanitário fosse transferido da Água do Limoeiro, zona leste de Londrina, para outro local mais adequado. Mas o Lixão, como é mais conhecido, continua recebendo as 300 toneladas diárias de lixo doméstico que são recolhidas na Cidade pelos caminhões da Vega Sopave (empresa responsável pela coleta). A lei, de autoria do vereador Tercílio Turini (PSDB), foi aprovada ainda no ano passado, na legislatura anterior, e dava à Prefeitura prazo máximo de um ano para a transferência do Aterro.
O diretor-superintendente da Autarquia do Meio Ambiente (AMA), Nelson Kohatsu, afirmou que em outubro solicitou ampliação de dois anos para o prazo de utilização do aterro. Kohatsu explica que existe uma comissão trabalhando há seis meses para encontrar novo local mas que, para viabilizar e implantar um novo aterro, inclusive com estudos de impacto ambiental, seria impossível cumprir o prazo estipulado pelo projeto de lei.
Para isso, foi encaminhado à Câmara projeto de lei do Executivo, justificando a necessidade de um prazo maior. O projeto está tramitando nas comissões e deverá ser votado em plenário ainda esta semana. ‘‘Já selecionamos seis áreas. A tramitação do processo vai afunilando até se chegar, através de critérios técnicos, ao local mais apropriado.’’
Milton DóriaSaturadoLixão recebe 300 toneladas diárias de lixo doméstico, que são recolhidas na zona urbana
A comissão é formada por membros da própria autarquia e também da Câmara Municipal, Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Londrina (Ippul), secretaria de Obras, Ministério Público, entre outros. Para o diretor da AMA, a vida útil do atual Lixão é de mais dois anos, tempo suficiente para escolher novo local, projetar e construir a obra, além de implantar o novo aterro. ‘‘Quando tivemos conhecimento da lei, começamos a estruturar a escolha’’, aponta.
Para o autor do projeto original, Tercílio Turini, mais dois anos para a transferência do Lixão é muito. ‘‘A gente até entende que a viabilização de uma nova área leva tempo. Mas eu vou propor a diminuição desse tempo, para seis meses ou um ano. Daqui a pouco já estaremos no final da administração e a situação ainda não foi resolvida. E o local lá não é adequado, é um fundo de vale e o Lixão nem deveria ter sido instalado lá. Até o lençol freático já está contaminado’’, justifica o vereador. ‘‘Os moradores da região estão sendo prejudicados. Então vamos discutir um tempo menor, porque dois anos é muito elástico.’’
Até que o impasse não seja resolvido, a população da zona leste continua tendo que conviver com o mau cheiro e os riscos de contaminação. Mas a situação já foi muito pior. O aterro sanitário ocupa uma área de 19 hectares ao lado da estrada do Limoeiro, zona leste de Londrina. Na época em que foi instalado, em meados da década de 70, não houve um estudo técnico de viabilidade e o local se transformou num depósito para onde eram levados todos os dejetos sólidos da Cidade, que ficam a céu aberto, sem qualquer medida de proteção ao meio ambiente ou à saúde pública.
Somente no final da década de 80 é que se começou a pensar em uma maneira de revitalizar o local, já que se suspeitava que a contaminação já atingia índices alarmantes. O professor Fernando Fernandes, do departamento de Construção Civil da Universidade Estadual de Londrina - área de saneamento -, lembra que em 1990 foi feito um primeiro levantamento técnico para tentar descobrir qual era realmente o comprometimento que o Lixão trazia para o meio ambiente e para a população local. ‘‘Falava-se muito do Lixão, mas ninguém tinha informações básicas sobre o local’’, conta. A falta de dinheiro, porém, impediu que o trabalho prosseguisse.
Já no final de 92, com a liberação de verbas federais, foi possível fazer um levantamento mais detalhado sobre a área. Foram estudos de subsolo, topográficos, caracterização do solo, deficiências, entre tantos outros. E o resultado não foi tão devastador quanto se imaginava. ‘‘A conclusão que a gente chegou é que o solo, embora tivesse sido escolhido sem critério e não fosse o ideal, tinha condições físicas adequadas para um aterro sanitário. Mas desde que recebesse dispositivos de proteção ambiental’’, destaca.
Entre as melhorias propostas pelo estudo estava a implantação de quatro ‘‘piesômetros’’, uma espécie de poço artesiano para monitoração da qualidade da água no subsolo. Além disso, havia previsão para instalar sistema de drenagem de água pluvial; cobertura do lixo que estava a céu aberto; compactação; impermeabilização do solo em área não utilizada; estação de tratamento do chorume; recuperação paisagística; e instalação de dreno para o gás metano, que é produzido pelo lixo e, se não for cuidado, pode até causar explosão.
Desde então, a situação do aterro começou a melhorar. Já não há mais inundações, quando chove forte, e os drenos de chorume e gás foram implantados. O lixo hospitalar - cerca de uma tonelada diária - ganhou uma área separada, em valas, e é recoberto por uma camada de cal e terra vegetal. ‘‘Mas apenas uma parte do que nós propomos foi implantado. Então houve melhorias, mas não totalmente satisfatórias’’, avalia o professor da UEL.
Em 96, outro levantamento foi feito, que apontou que a vida útil do aterro era de três a quatro anos, o que coincide com a posição da AMA. A proximidade com o fim da capacidade do aterro, somada aos problemas que foram acumulando ao longo dos anos - e nem sempre sanados - tem apontado para um caminho ainda sem solução. ‘‘A situação hoje do aterro é bastante difícil. Logo vai acabar a terra para compactar o lixo. E a lagoa de chorume, por exemplo, está no limite. Com as chuvas que estão previstas para os próximos meses, não está descartada a hipótese de vazamentos’’, alerta Fernando Fernandes.
Para o professor da UEL, no entanto, muito mais do que escolher uma nova área para a instalação do novo aterro, seria necessário elaborar um ‘‘plano diretor’’ para definir exatamente o que a Cidade pretende fazer com o lixo a médio e longo prazo - desde o tipo de coleta até o tratamento mais adequado, considerando também os custos e os benefícios, a Cidade e a região. A simples escolha, sem uma análise global do problema, poderia provocar a repetição de um erro que já foi cometido no passado. ‘‘A solução tem que ser definitiva. Uma vez que for instalada a mudança, é difícil voltar atrás. A obra é para 20 anos.’’

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