Foz do Iguaçu

Sílvio VeraNa fronteiraSilvio Alcaraz, paraguaio naturalizado que sofre de insuficiência renal: ‘É uma luta muito difícil’A nova lei dos transplantes deixou os estrangeiros que vivem em Foz do Iguaçu, na fronteira entre o Brasil e o Paraguai, com muitas dúvidas. Alguns não sabem se a lei passa a valer também para eles. Outros não concordam com ela e pretendem tirar nova carteira de identidade proibindo a retirada de órgãos. Em Foz, vivem muitos coreanos, chineses, árabes, paraguaios, argentinos e uruguaios.
Segundo a consultoria jurídica do Ministério da Saúde, a lei vale para os estrangeiros naturalizados e os estrangeiros residentes (que têm visto para permanecer no País). Mas só são aceitos na lista de espera para transplante de órgãos os estrangeiros naturalizados.
Em Foz do Iguaçu, até hoje apenas um caso de doação de órgãos envolvendo estrangeiro foi registrado pelo Setor de Transplantes de Rins da Santa Casa Monsenhor Guilherme. Um argentino teve morte cerebral e a família autorizou a retirada dos órgãos. Em todo o Estado, 20 estrangeiros aguardam doação.
A médica nefrologista do Setor de Transplantes, Célia Garcia Barufatti, diz que não é comum a doação de órgãos por estrangeiros. ‘‘Pelo menos aqui em Foz, onde vivem muitos estrangeiros, são raras as doações por parte deles. Principalmente os coreanos, árabes e chineses.’’
A coordenadora da Central de Transplantes do Paraná, Cristina Vonglehe, diz que a questão dos estrangeiros residentes ainda está sendo discutida pelo Ministério da Saúde e pelo Itamarati. ‘‘Essa questão dos estrangeiros ficou um pouco de lado. Enquanto aguardam uma resolução, os estrangeiros ficam numa situação semi-ativa. Eles não concorrem a um órgão doado enquanto a situação deles não for definida. Mas não perdem a vez na lista de espera, continuam escritos.’’
Segundo ela, no caso de morte cerebral de um estrangeiro que não é nem residente, nem naturalizado, a família deve ser consultada. ‘‘A documentação deles é diferente. Eles não são obrigados a ter nos documentos se são ou não doadores.’’
O programador Silvio Alcaraz, 31 anos, nasceu no Paraguai mas se naturalizou brasileiro quando ainda era adolescente. Ele sofre de insuficiência renal há nove anos. Em maio de 1993, Alcaraz recebeu um transplante de rim, mas um ano e meio depois teve rejeição crônica e agora necessita de um novo transplante. Há três anos ele voltou a fazer sessões de hemodiálise. ‘‘Eu nunca tive medo. Tenho muita esperança em conseguir um rim novo. Mas a espera é uma coisa muito difícil. Às vezes, ao mesmo tempo que eu tenho a sensação de que o rim vem logo, eu também tenho a sensação que ele nunca vai chegar’’, diz.
Ele explica também que já foi chamado três vezes desde que voltou para a lista, mas o novo transplante ainda não foi viável clinicamente. ‘‘É uma luta muita difícil. O paciente precisa de muito preparo psicológico, do contrário não aguenta a espera.’’ Alcaraz diz que a lei de transplantes é muito confusa. ‘‘Essa lei tem que ser mais divulgada para que a população passe a entender melhor. Até para os médicos é difícil. Como é que eles vão tirar os órgãos de um cadáver sem falar com os parentes dele? Essa lei precisa ser aperfeiçoada e modificada em algumas partes.’’
O empresário Johm Liaw, 30 anos, nasceu na China e foi naturalizado brasileiro quando tinha seis anos. Ele não concorda com a lei e afirma que vai retirar nova carteira de identidade porque não quer ser doador. ‘‘Essa lei é uma agressão ao direito humano. O médico acaba virando o juiz do teu corpo e da tua morte. Até onde eu posso confiar em um médico?’’
O uruguaio Rafael Eduardo Vaz Ifran, 40 anos, é corretor de imóveis e vive há 15 anos no Brasil. Ele concorda com a lei de transplantes e acha que ela também deve valer para todos os estrangeiros que estão no País. ‘‘Eu acho que a gente tem que fazer alguma coisa pelos outros. Eu me sentiria como o culpado por uma morte se eu pudesse doar meus órgãos e não doasse.’’

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