Josoé de CarvalhoCrençaAhmad Saleh Mahairi: ‘Fazemos o jejum para cumprir um dever’Cerca de 1,3 bilhão de muçulmanos em todo o mundo comemoraram ontem a chegada do Ramadan, mês do calendário lunar adotado pelos árabes. O início do dia exato depende sempre do aparecimento da Lua Nova. Durante trinta dias, todos os muçulmanos adultos e saudáveis vão fazer jejum das quatro horas da manhã até o pôr-do-Sol. O jejum é geral: eles não vão poder comer, beber, fumar ou praticar sexo.
‘‘Fazemos o jejum para cumprir o dever que Deus instituiu aos muçulmanos. E esse dever, para nós, é social’’, observa o sheik Ahmad Saleh Mahairi, supervisor da religião islâmica no Paraná. Ele explica que o ‘sacrifício’ feito através do jejum é a maneira mais eficiente das pessoas entenderem o sofrimento dos mais carentes. ‘‘A fome é uma palavra abstrata, que ninguém vai compreender se não passar por ela’’, completa.
Mahairi comenta que o jejum é um dos cinco pilares do Islamismo, revelados por Deus ao profeta Mohammad ainda no ano de 610 antes de Cristo, há 1,4 mil anos, e que faz parte do Alcorão. Os outros pilares são a peregrinação à Meca, na Arábia Saudita, ao menos uma vez na vida (desde que haja condições de saúde, financeira e de segurança para viajar); fazer oração cinco vezes ao dia; fazer doações aos pobres, conhecida também como ‘‘zaqat’’; e a certeza de que há um só Deus e que Mohammad foi seu último mensageiro.
No Brasil, são cerca de 1 milhão de muçulmanos. Somente no Paraná, são aproximadamente 10 mil famílias, metade delas residentes em Foz do Iguaçu, região oeste do estado. A capital, Curitiba, concentra 600 famílias e Londrina, 300 pessoas. Ahmad Mahairi lembra que alguns muçulmanos estão dispensados da prática: crianças, mulheres em período de menstruação ou até 40 dias após dar à luz, gestantes, mulheres que estão amamentando, pessoas enfermas e idosos. ‘‘Mas quem não pode fazer na época do Ramadan, como os viajantes ou as mulheres, deve fazer assim que puder’’, aponta o sheik. Já os idosos e portadores de doenças incuráveis deverão substituir o jejum por doações aos pobres, como roupas e comidas.
Durante o Ramadan, a pessoa também deve praticar o ‘‘zaqat’’, que é o ‘‘pagamento’’ de 2,5% de todo capital líquido da pessoa - dinheiro ou produção - para famílias carentes. E no final do jejum, o muçulmano tem ainda que pagar o ‘‘zakat al-fitr’’, que significa a doação de roupas e comidas para os necessitados de acordo com o número de membros de cada família. Ou seja: se a família tem cinco pessoas, tem que ajudar cinco pobres. ‘‘O Ramadan é um mês de carinho e mês dos pobres. No mundo islâmico, eles esperam pelo Ramadam.’’
Ao contrário do que possa parecer, o sheik Ahmad Mahairi explica que, quando termina o jejun, o muçulmano se sente revitalizado para percorrer os meses seguintes. ‘‘Quem faz o jejum termina o mês muito leve, saudável. Quem sofre de colesterol, por exemplo, reduz a quantidade de gordura no sangue; quem tem problemas de estômago também. Purifica o sangue e o estômago’’, diz o sheik.
Mahairi - que chega a perder 10 quilos durante o Ramadan - acrescenta que muitos médicos não muçulmanos, no Brasil e também em países europeus, e já adotaram a técnica para melhorar o estado físico. ‘‘Por isso o profeta disse que é preciso jejuar para ter saúde também.’’

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