Um tribunal dominado pelos Estados Unidos não tem legitimidade para julgar o ex-presidente iraquiano Saddam Hussein. O momento do país do Oriente Médio, ocupado por tropas estrangeiras, também não é o ideal para a realização do julgamento. E por maiores que sejam os erros cometidos pelo ditador, nada justifica a ingerência de outros nações na política interna.
As opiniões, que têm potencial para criar polêmica, são de quem conhece muito da história e um pouco da realidade atual do Oriente Médio. Nascido no Líbano, o comerciante e professor aposentado Mohamad El Kadri está desde 1954 em Ibiporã (14 km a leste de Londrina). Para ele, o interesse norte-americano no petróleo é a principal motivação para os ataques e a ocupação do território iraquiano.
A opinião de El Kadri não é única. Ele é membro atuante na Mesquita Rei Faiçal, que reúne muçulmanos de toda a região norte do Estado em Londrina.
''O Iraque hoje está esfacelado, em pé de guerra. Com que direito os Estados Unidos chegam e destróem um país? O Saddam é um ditador, não é nenhum santo, mas esse tribunal não tem moral para julgá-lo'', avalia. El Kadri, no entanto, deixa claro que não concorda com muitas das práticas de Saddam Hussein enquanto estava no poder. Ele defende a eleição direta para presidente, a liberdade de imprensa e um julgamento para o ex-ditador, desde que por um tribunal isento e depois que o país seja desocupado pelas tropas estrangeiras.
''Se Saddam Hussein realmente praticou os crimes, ele tem de pagar'', ressalta. Mas as críticas também atingem o governo dos Estados Unidos. A capacidade dos serviços de inteligência ianques seriam mais do que suficientes para tirar Saddam Hussein do poder, sem penalizar o povo.
A prova de que não existiam armas de destruição em massa, reconhecida pelos próprios Estados Unidos, demonstram que a política externa do presidente George W. Bush está ''equivocada'', segundo El Kadri. O resultado é que o apoio popular ao governo tem caído, o que deverá provocar a derrota dos norte-americanos no Iraque.
''Com que direito os americanos, os ingleses, têm o direito de chegar e destruir uma cidade por causa do prefeito, destruir um Estado por causa do governador ou descobrir um país por causa do presidente?'', questiona. ''A ingerência externa nunca é bem-vinda'', pontua.
Muitos paranaenses da região foram para o Iraque trabalhar como operários e relataram, segundo El Kadri, que o país é moderno, com um alto grau de desenvolvimento. Apesar de ter ficado anos sob a sombra da ditadura de Saddam Hussein.
Portanto, a decisão sobre o comando deve pertencer aos próprios iraquianos. E é isso que está previsto no Alcorão, o livro sagrado do Islã. Considerado a Constituição em alguns países do Oriente Médio, inclui preceitos democráticos. ''O Islamismo prega a democracia em todos os graus. A maioria do povo escolhe o seu comandante. Só que o problema é que nem tudo o que está escrito é praticado'', resume.

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