Levantamento da Polícia Civil, do qual a Folha obteve uma cópia com exclusividade, mostra que, nos últimos oito anos, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) do Paraná ou seus militantes foram indiciados em 124 inquéritos policiais.
O MST foi criado em 1980 e intensificou sua ação no País a partir de 85. No Paraná, a atuação do movimento ganhou força principalmente a partir de 93, primeiro ano englobado pelo levantamento. Hoje, o Estado tem 7 mil militantes, acampados em 75 propriedades invadidas. Quinze mil famílias já estão assentadas, em 263 áreas.
A maioria dos inquéritos reunidos no levantamento foi aberta para apurar invasão de propriedade e esbulho possessório (tomar à força a posse de um bem alheio). Nessa situação estão 35% dos casos – 43 ocorrências. Em seguida, aparecem roubo e furto (principalmente de gado) – 23 casos (18,5%). Os homicídios e tentativas de homicídio somam 17 inquéritos (13,7% do total) e o porte de armas, nove (7,2%).
Os outros 32 inquéritos restantes, que representam cerca de 25% dos casos, envolvem desde crimes coletivos – como corte ilegal de madeira (3 casos), cárcere privado e suspeita de participação em roubo a banco (3 casos) –, até pequenos delitos individuais – como agressão, furto de um cavalo e porte de maconha.
Os 124 inquéritos foram instaurados nas delegacias de 54 municípios. Isso significa que 13,5% dos 399 municípios paranaenses apuram um ou mais crimes atribuídos ao MST ou seus militantes. O Noroeste do Paraná – região do Estado em que a questão fundiária é mais aguda– concentra a maioria desses casos. Mas também há um grande número de ocorrências nas regiões Central, Oeste e Sudoeste.
O município campeão em número de investigações é Querência do Norte (113 quilômetros a oeste de Paranavaí, na região Noroeste), onde foram registrados, de 1993 até este ano, 24 boletins de ocorrência. O segundo lugar no ranking, com nove casos no período, é ocupado por Jardim Alegre (115 quilômetros ao sul de Apucarana, na região central). Em terceiro lugar está Laranjeiras do Sul (109 quilômetros a oeste de Guarapuava, no Oeste do Estado), com sete inquéritos.
Pelo menos um dos processos relacionados no levantamento causa estranheza. É o inquérito aberto em março de 93 no município de Campo Bonito (63 quilômetros a leste de Cascavel), para apurar a morte do líder sem-terra Diniz Bento da Silva, o Teixeirinha.
Teixeirinha foi morto em 8 de março daquele ano por policiais militares e civis. Ele era acusado de comandar a morte de três PMs na Fazenda Santana, pertencente ao Grupo Agroindustrial Beledelli, ocupada em 91 pelo MST. Apesar das provas de que Teixeirinha foi morto pela polícia, os sem-terra continuam, pelo menos oficialmente, sendo investigados pelo assassinato do próprio companheiro.

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