Edson Mazzetto/Arquivo FolhaEsperando a terraO maior número de famílias sem-terra (1,65 mil) está na Fazenda Pinhal Ralo, em Rio Bonito do IguaçuDirigentes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) do Paraná e representantes de assentamentos e acampamentos estão reunidos em Cantagalo, no Centro-Oeste do Estado, no 12º Encontro Estadual, avaliando a questão da reforma agrária. O encontro ocorre numa das fases mais críticas da história fundiária do País, com o agravamento de conflitos com proprietários de terras. Segundo Roberto Baggio, um dos coordenadores estaduais, o MST deve ‘‘aprofundar cada vez mais a luta pela terra’’.
O encontro reúne cerca de 150 pessoas que representam quase 6 mil famílias de 124 assentamentos e 8,5 mil de áreas de conflito no Paraná. O maior número de famílias (1,65 mil) está na Fazenda Pinhal Ralo, em Rio Bonito do Iguaçu, proximidades de Cantagalo. Coordenadores do MST que estão em Cantagalo classificaram ontem como ataque o desafio que está sendo apresentado pelo senador Osmar Dias (PSDB/PR). O senador pede ao MST que apresente ‘‘um cadastro das famílias que tenham, realmente, vocação para a terra’’.
Em nota que distribuiu de Brasília no dia anterior, o senador disse que ‘‘mais de 30% das famílias já assentadas pelo governo abandonaram suas novas propriedades e voltaram para a fila do assentamento’’. Segundo Osmar Dias, além de comandar invasões, o MST ‘‘radicaliza, provoca conflitos e provoca o governo, em vez de se organizar para cumprir os seus próprios objetivos’’. Disse também que quando lideranças de um extremo e de outro empreendem ‘‘essa história de conflitar, se colocam contra a reforma agrária’’.
Também através de nota, o MST disse que o senador persegue ‘‘um movimento objetivo legítimo que luta por terra e justiça’’, e está desinformado ao pedir um cadastro das famílias, ‘‘porque ele já existe’’. Utilizando dados do próprio governo, do IBGE e do Incra, o movimento cita a existência no Brasil de 4,8 milhões de famílias sem-terra e 200 milhões de hectares de terras improdutivas passíveis de desapropriação. Quanto à sua atuação, o MST destaca que ‘‘a luta tem reconhecimento nacional e internacional por sua firmeza e coragem’’.
Os coordenadores reunidos em Cantagalo estão avaliando com especial atenção o caso da Fazenda Pinhal Ralo (invadida em abril de 96). Desde o dia 17, o Incra faz vistoria na área, pertencente à empresa Giacomet-Marodin (que tem sede em Porto Alegre). Segundo o MST, grande parte dos 83 mil hectares da fazenda não seriam explorados, o que é contestado pela direção da empresa. A Giacomet-Marodin aceitou a desapropriação, pelo Incra, de 16.852 hectares, por R$ 16,6 milhões em Títulos da Dívida Agrária.
Segundo o MST, a vistoria do Incra será concluída até 5 de março, e 15 dias depois fica pronto o relatório para avaliação do Ministério da Política Fundiária. Quanto aos 16.852 hectares que a Giacomet-Marodin aceitou negociar, falta ainda a conclusão do processo desapropriatório, com imissão de posse ao governo para que ocorra o repartimento dos lotes e efetivo assentamento das famílias.

mockup