MST quer terra da Usina Central
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segunda-feira, 03 de novembro de 2008
Vanessa Navarro<br>Reportagem Local 
Porecatu - Com um movimento incessante de facões, homens vão erguendo a estrutura dos barracos com varas de bambu. Na cozinha comunitária improvisada debaixo de uma lona, uma panela de pressão quase estoura - mas o feijão que vai alimentar centenas de pessoas está garantido, assim como o arroz, a carne e a salada. Crianças correm para lá e para cá, mães amamentam bebês, um grupo de rapazes anima os demais cantando e tocando violão. É mais um acampamento do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) que vai surgindo, dessa vez na Fazenda Variante, em Porecatu (85 km ao norte de Londrina).
Mas este é diferente da maioria: aqui, não restam dúvidas de que existe uma extensa área plantada. A lavoura de cana-de-açúcar cerca os barracos emergentes a perder de vista. Os representantes do MST admitem: não foi a improdutividade que os levou a ocupar a área, mas as irregularidades constatadas recentemente por órgãos federais. A fazenda pertence à Usina Central de Porecatu, alvo de uma operação realizada no início de agosto por fiscais do Ministério do Trabalho e agentes da Polícia Federal, que flagraram cortadores de cana em regime análogo ao escravo, entre várias outras acusações. Duzentos autos de infração foram expedidos, um inquérito aberto, 15 setores interditados e dezenas de trabalhadores afastados.
''Como um crime foi praticado aqui, não se pode dizer que a função social está sendo cumprida. Isso legitima a nossa ocupação e a futura desapropriação da terra'', justificou ontem o membro da coordenação estadual do MST José Damasceno, para completar: ''Será a primeira experiência desse tipo no Paraná. E daqui para a frente, pode escrever: toda área que tiver trabalho escravo, o MST vai reivindicar para reforma agrária.''
Vindos de acampamentos de todo o Paraná, os sem-terra chegaram ao local na manhã de sábado e, segundo o MST, estão em número superior a 2 mil. Uma jovem que não quis se identificar contou que está há um ano no movimento e que saiu de Rio Branco do Ivaí (126 km ao sul de Apucarana) para engrossar a ocupação em Porecatu. ''Mas vou voltar'', disse. Damasceno afirmou que o caso dela é uma exceção. ''Grande parte das famílias está esperando terra faz oito, dez anos. Quem tem menos tempo no movimento está há pelo menos cinco anos. E agora é aqui que eles vão ficar'', garantiu.
O representante do MST declarou que o grupo pretende substituir a monocultura por lavouras de milho, arroz, feijão e mandioca. ''Primeiro para subsistência. Depois pensamos no excedente de mercado'', assinalou. A cana que já está plantada não deverá ser aproveitada. ''Nem sabemos como trabalhar com isso'', acrescentou. A área total da fazenda é de pouco mais de 1,3 mil hectares. O acampamento foi erguido bem próximo ao Rio Tibagi.
Na manhã de ontem, um grupo de sem-terra participou de missas em homenagem ao Dia de Finados na cidade e aproveitou para sentir o ''clima'' entre os moradores. ''As pessoas estão abertas e nos apoiando. A população parece indignada com a escravidão que havia se estabelecido aqui e muitos concordam que só um movimento organizado pode acabar de vez com isso'', disse uma das integrantes do MST.
Desde que a Usina Central interrompeu a produção, o comércio local amarga queda nas vendas. Marli Alves Cruz, proprietária de uma panificadora, contou que o movimento caiu cerca de 20% no estabelecimento. ''Isso já faz grande diferença para nós e sabemos que pode piorar. Muitos foram trabalhar em usinas de outras cidades e deixaram as famílias aqui, mas é provável que acabem se mudando de vez'', observou. Sobre a ocupação da fazenda, a comerciante se mostrou temerosa. ''Tenho medo que isso traga conflitos. Melhor seria que a Usina reabrisse, mas com condições dignas para os trabalhadores.''


