MST promete vingança com invasões
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quinta-feira, 21 de agosto de 1997
Sid Sauer Nova Cantu 
Marcos NegriniManifestaçãoMais de 500 pessoas acompanharam o cortejo desde a Fazenda Rio Tonete até o cemitério de Nova Cantu, num percurso de 10 quilômetrosUm clima de revolta marcou ontem o enterro do sem-terra José Arnaldo dos Santos, 26 anos, em Nova Cantu (130 km ao sul de Campo Mourão). Ele morreu na madrugada de quarta-feira, quatro dias após ter levado um tiro na cabeça no acampamento montado pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-terra (MST) na Fazenda Rio Tonete, do Grupo Slaviero. A principal palavra de ordem durante o cortejo foi a vingança da morte do lavrador através de novas invasões em áreas da região.
A morte de José Arnaldo vai nos garantir a terra, ressaltou Paulo Sérgio de Souza. Precisamos dar o troco ocupando o resto das fazendas dos Slaviero. Souza foi o primeiro a discursar ontem de manhã, em missa realizada durante o velório, num galpão da fazenda invadida. O mau tempo atrapalhou o protesto prometido pelos sem-terra, mesmo assim, mais de 500 acompanharam o cortejo desde a fazenda até o cemitério municipal, num percurso de cerca de 10 quilômetros.
O caixão foi levado de carro do acampamento até a entrada da cidade, com o cortejo seguindo em ritmo lento pela PR-239. Seis ônibus transportaram a maior parte dos sem-terra. A Polícia Militar acompanhou tudo de longe com duas viaturas. Da entrada da cidade até o cemitério, num trecho de cerca de um quilômetro, o cortejo seguiu a pé. Os sem-terra passaram em fila pelas ruas de Nova Cantu. O comércio fechou as portas.
Em 40 anos de Nova Cantu nunca vi um enterro como esse, disse o taxista Euzébio Martins Cardoso. Durante todo o percurso, um carro de som ficou tocando uma marcha fúnebre. Um outro seguia com discursos defendendo novas invasões. No cemitério, aconteceram outros discursos. Até o vice-prefeito da cidade, Airton Agnolin (PTB), defendeu a reforma agrária. Até quando vamos ver tragédias como essa?, questionou.
Luto e lutaNo total, desde a saída do acampamento, o cortejo demorou mais de duas horas. O caixão foi ao túmulo ao som do hino dos sem-terra e de um canto religioso que dizia: Mataram mais um irmão, mas o povo não esquecerá. Nosso luto se reverterá em luta, frisou um dos líderes do acampamento, Julir das Chagas Martins. Temos que reverter o sangue do nosso companheiro em coragem. Segundo ele, é melhor morrer lutando do que de fome.
Além dos discursos anunciando novas invasões para vingar a morte de Arnaldo, os líderes do movimento também procuraram encorajar os sem-terra para prosseguir com o movimento. Temos muito mais chances de morrer lá fora do que na luta pela terra, ressaltou Martins. De um jeito ou de outro, vamos acabar morrendo. Então, se tivermos que morrer, que seja pela nossa libertação. A Comissão Pastoral da Terra também enviou mensagem de apoio aos sem-terra.
Se juntarmos forças, não seremos barrados nem com metralhadoras, reforçou Jaime Calegari, da direção estadual do MST. Daqui não devemos recuar jamais, mas avançar sempre. O sem-terra morto morava há cerca de 10 anos em Nova Cantu. Ele era casado e tinha uma filha de quatro anos. A Fazenda Rio Tonete tem pouco mais de 200 alqueires, mas é rodeada por várias outras propriedades da família Slaviero. Todas estão na mira do MST.


