Tamarana Enquanto a bandeira vermelha, hasteada com ajuda de dois pequenos troncos de eucalipto, avisava que o acampamento obedece a cartilha do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), os olhos da desconfiança avisavam que alguns forasteiros, desde ontem, não são bem-vindos ao local. Cerca de 30 famílias de bóias-frias ocuparam uma reserva de preservação ambiental, dentro do Assentamento Serraria, em Tamarana (62 km ao sul de Londrina), querendo despertar a atenção da opinião pública para a questão da reforma agrária no País.
São desempregados, sem perspectiva de arrumar trabalho na cidade que, apesar da burocracia que sufoca o processo de assentamento rural, ainda sonham com um pedaço de terra para cultivar. ''O governo tem uma promessa com a gente, decidimos formar este acampamento porque não temos emprego e moradia na cidade. Por enquanto, não temos objetivo definido, vamos esperar e ver o que o governo irá fazer'', disse um dos integrantes do acampamento que, a exemplo dos companheiros, decidiu não se identificar.
O anonimato foi uma exigência do acampamento para continuar a entrevista. Arredios, e temerosos de que informações deturpadas acabem arranhando a imagem do MST, os sem-terra impediram a reportagem de entrar no local. ''Tivemos uma experiência ruim ontem (quarta-feira) à tarde. Uma equipe de televisão entrou aqui, dizendo que iria nos ajudar, mas acabou nos prejudicando'', acusou um deles.
São aproximadamente 50 barracos, todos construídos na base da improvisação, com lonas pretas e estrutura de troncos de eucalipto. As cozinhas, com fogões abastecidos a lenha, também são precárias. Banho, só no córrego sem nome que corta a reserva, de propriedade do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). A mesma água lava roupas e louça suja. ''Estamos aqui há 15 dias, sobrevivendo com ajuda de familiares, que trazem uma coisa ou outra. Não recebemos ajuda de mais ninguém'', relatou uma senhora, que já integrou um acampamento do MST, no mesmo local, há pouco mais de dois anos.
O acampamento tem a marca da pluralidade, com uma distribuição heterogêneas e pessoas de várias idades. Enquanto um grupo se aglomerava ao perceber a presença de um visitante, logo no início do acampamento, a cerca de 10 metros da estrada de terra que leva a Tamarana, um barraco protegia uma criança de apenas três meses. As pessoas chegam de Tamarana e distritos de Londrina: Lerroville, Irerê e Guaravera. Lá, tem idoso, jovem, criança e até mesmo mulher grávida, todos vivendo sob as mesmas condições precárias, mas necessárias, segundo eles.
Sem uma coordenação articulada, o acampamento prevê a partir de hoje a chegada de mais 500 famílias, o que deve despertar ainda mais a atenção policial na região. Segundo o MST, uma equipe da Polícia Militar esteve no local avaliando a amplitude do movimento.
O secretário de Meio Ambiente de Tamarana, Hélio Brás Ferreira, enviou terça-feira ao Instituto Ambiental do Paraná (IAP) um documento alertando para o corte ilegal de eucaliptos no acampamento. O IAP repassou a denúncia à Polícia Florestal, que esteve no local pedindo o fim da derrubada de árvores. Os sem-terra alegam que cortaram troncos distantes um do outro, conforme orientação da própria polícia, e disseram também que respeitam a área de preservação permanente, que se estende até 30 metros a partir do córrego.
O escritório regional Norte Novo do MST, de Londrina, confirmou ontem que o acampamento de Tamarana conta com o apoio do movimento.

mockup