MST pode disputar fazenda com índios
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segunda-feira, 26 de setembro de 2005
Luciano Augusto<br> Reportagem Local 
A Superintendência do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) em Curitiba informou ontem que está negociando a compra de 230 hectares da Fazenda Tamoio, em Tamarana (62 km ao sul de Londrina), que foi invadida por índios caingangues da Reserva Apucaraninha na última quinta-feira. A intenção do Incra de usar a propriedade para assentar 12 famílias de agricultores sem-terra se choca com os interesses dos índios, que não pretendem abrir mão da área da qual alegam serem os donos legítimos.
A assessoria de comunicação do Incra no Estado afirmou que a área da fazenda já foi vistoriada e considerada improdutiva. O órgão está em negociação com o proprietário mas haveria divergências quanto ao valor a ser pago. Após consumada a desapropriação, o Incra pretende assentar na fazenda 12 famílias ligadas ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST). Uma semana atrás, 26 famílias que ocupavam a fazenda havia seis meses foram retiradas pela Polícia Militar durante uma ação de reintegração de posse. Os agricultores permanecem acampados há poucos quilômetros da entrada da propriedade. Questionado sobre o risco de uma disputa entre trabalhadores rurais e os índios, a assessoria do Incra argumentou que isso só poderia acontecer após a desapropriação, se a Funai posicionar-se favoravelmente aos caingangues.
Os integrantes do MST que permanecem acampados próximo à fazenda acompanham com expectativa redobrada o desenrolar da negociação com o proprietário. De acordo com um dos acampados, João Jesus de Oliveira, o relacionamento deles com os índios é pacífico mas poderá haver dificuldades caso o Incra defina que a terra deva ser repassada aos agricultores. ''Vai ficar difícil porque brigar com eles não vai ter jeito. Vamos ter que tentar negociar a área com os índios'', apontou.
O administrador-regional da Fundação Nacional do Índio (Funai) em Londrina, José Gonçalves dos Santos, explicou que os caingangues reivindicam há tempos a inclusão de cerca de 700 hectares à atual reserva do Apucaraninha. Em março, ele encaminhou pedido à Brasília para formação de um grupo técnico para rever a demarcação da reserva, uma vez que, originalmente, os índios teriam direito à 6,3 mil hectares e a área disponibilizada soma somente 5,574 mil hectares. ''Considero verdadeira a razão deles lutarem para tentar reaver suas terras. Só não concordei com a forma que eles fizeram porque o certo era esperar a conclusão do trabalho do grupo técnico da Funai'', comentou Santos. O problema é que o pedido feito há seis meses até hoje não mereceu resposta por parte da cúpula da Funai, na capital federal.
Enquanto isso, desde a última quinta-feira, 30 famílias de índios permanecem ocupando a sede e os arredores da fazenda, que é vizinha à aldeia do Barreirinho na Reserva do Apucaraninha. Caso o tempo melhore nos próximos dias, o movimento poderá ser engrossado com a chegada de índios de outras reservas do Paraná. As famílias indígenas ocuparam a área um dia depois que os integrantes do MST saíram. Os caingangues temem perder novamente a posse da terra com a desapropriação. Desta vez, para os agricultores.
A Folha não conseguiu contatar nenhum representante do proprietário da Fazenda Tamoio para falar sobre o assunto.


