MST ocupa fazenda de 58 alqueires
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terça-feira, 26 de agosto de 1997
Alexandre Sanches Primeiro de Maio 
Josoé de CarvalhoTrabalhadores sem-terra montam barracas na Fazenda São Marcos; proprietário reclama de violênciaTrinta e oito famílias integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) invadiram anteontem à noite a Fazenda São Marcos, em Primeiro de Maio (61 km ao norte de Londrina). Um dos proprietários da área de 58 alqueires - dimensões inferiores às exigidas para a reforma agrária -, Jurandir do Nascimento, 55 anos, acusa os sem-terra de atos violentos na ocupação.
Por volta das 22 horas eles chegaram na minha casa, no alto da fazenda, arrombaram as portas e, armados de revólveres, facões e foices, avisaram que estavam tomando a área. Estavam na casa Jurandir, a mulher e o filho. Em seguida os sem-terra desceram para outra casa, a cerca de 200 metros, onde estavam dois sobrinhos.
Jurandir afirmou que os sem-terra disseram estar invadindo a fazendo porque a terra seria leiloada pelo Citibank. Eles disseram que foi o banco que mandou eles invadirem. Acontece que não temos nenhuma dívida com o Citibank, afirmou outro proprietário, Orlando do Nascimento, 56 anos. Ele explicou que contraiu uma dívida em 1985 com a Contact Financiamentos, de Assis (SP), e a pagou no mesmo ano.
Por causa da invasão, os irmãos registraram queixa na delegacia, mas os policiais não foram à fazenda. Eles nos orientaram a entrar com ação judicial de reintegração de posse. O advogado Mauro Viotto está mexendo com isso, informou Orlando. Na fazenda, há uma lavoura de milho, prestes a ser colhida. Funciona ainda uma empresa de lavagem de sacos de estopa. Os 12 funcionários foram impedidos de entrar na propriedade.
O líder do acampamento dos sem-terra, Carlos Alberto de Oliveira, 41 anos, garante que não houve violência na ocupação. Eles não são os donos da lavoura de milho. Na realidade quem plantou foi o arrendatário. Mas não vamos mexer em nada. Queremos que colham logo a área para a gente iniciar o plantio, informou.
Oliveira reconheceu que a fazenda não é passível de reforma agrária. Não estamos para discutir isso, mas a necessidade do povo plantar para sobreviver. Os sem-terra vão aguardar o Incra e o banco realizarem um acordo para compra da área. As 38 famílias são as últimas do acampamento provisório da Fazenda Ingá, em Alvorada do Sul.
O uso de violência foi negado pelo líder sem-terra. As armas são proibidas aqui no acampamento. Eu não posso garantir que não tenha nenhuma escondida com alguma família. Mesmo assim, o acampamento está liberado para qualquer policial vistoriar. Ele disse que a entrada na fazenda só está liberada para Jurandir do Nascimento.
A Folha só teve acesso à casa ao lado do acampamento, onde estavam dormindo os sobrinhos de Nascimento no momento da invasão. Como vocês podem ver, nenhuma porta foi quebrada na ocupação. E o imóvel está à disposição do proprietário a qualquer momento, até que seja feita a reforma agrária, declarou Oliveira. O acesso à outra casa foi negado.


