Marcos Borges


Marcos Borges


ConcentraçãoSem-terra montam barracas. O ex-sapateiro e ex-trabalhador rural Eliseu de Oliveira: melhor aqui que desempregado. Plano do MST é manter famílias acampadas até que governo libere novos assentamentosALVORADA DO SUL - A organização e a solidariedade são palavras de ordem no grande acampamento que está se formando na Fazenda Ingá, em Alvorada do Sul (68 quilômetros ao norte de Londrina), próximo do limite com Bela Vista do Paraíso. Até o final do mês, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) espera reunir 2 mil famílias no local.
A cada dia, mais famílias estão chegando. Pelos cálculos do movimento, em cinco dias de acampamento haviam chegado 180 famílias à área. Ontem estavam sendo esperadas mais 200 famílias vindas do Sudoeste do Paraná.
Distribuídos em dois alqueires de mata da fazenda, num terreno acidentado, os acampados procuram se instalar em pequenos grupos. A mata é derrubada aos poucos e a madeira é utilizada na construção das barracas, respeitando um cronograma de trabalho estabelecido pela coordenação do acampamento. Quem já está instalado ajuda aquele que acabou de chegar.
Vínculo com o campo Segundo o coordenador do MST, Pedro Silva Bonfim, 38 anos, as pessoas que estão chegando viviam nas cidades. ‘‘Eles participaram de reuniões de base, formando núcleos de famílias. Todos já tiveram algum vínculo com o campo. Por este motivo, na esperança de conseguir um pedaço de terra, deixaram tudo na cidade e vieram para cᒒ, comenta.
O grande número de famílias e a possibilidade de falta de alimento não preocupa a coordenação. Bomfim garante que será cedida uma área de quatro alqueires para que os acampados plantem em regime de cooperativa. ‘‘Além disso, temos garantidas cestas básicas fornecidas pelo Incra, o que ajudará a amenizar a fome destas famílias’’, ressalta.
A falta de condições sanitárias e de atendimento médico - principalmente para o grande número de crianças - também não preocupa. Pedro Bonfim argumenta que a área foi escolhida porque fica perto de Bela Vista do Paraíso (cerca de 5 quilômetros), e conta com muitas fontes de água.
Numa das barracas que estavam sendo reconstruídas anteontem, o ex-sapateiro Eliseu Cardoso de Oliveira, 43 anos, de Londrina, estava animado com a possibilidade de conseguir um lote. Com a mulher e um filho de 3 anos, acha que será melhor que a vida na cidade. ‘‘Em Jaguapitã, onde morei, sempre lidei com a terra. Quando aprendi a profissão de sapateiro, achei que morar em Londrina seria melhor. Quebrei a cara. Aqui é melhor que ficar desempregado’’, desabafou.
A dona-de-casa Joana Bezerra da Silva, 37 anos, deixou tudo em Jataizinho e foi com o marido e três filhos viver sob lonas. ‘‘De que adianta viver na cidade, com água, luz, mas não tem emprego e nem dinheiro para as prestações? O pior é não ter o que comer’’, ressalta. Para ela, é mais fácil viver no acampamento, pois tem um motivo maior para viver: a conquista de um pedaço de terra. As famílias deverão ficar acampadas na Fazenda Ingá por tempo indeterminado, aguardando novos assentamentos.

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