Paulo WolfgangCara a caraEdson Deliberador, Josmar Choptian, o mediador Anibal, Neco Garcia e José Damasceno: sem acordo- Vocês fazendeiros são muito radicais, tá louco!
- Radicais, nós? Aprendemos com vocês.
Essas foram as últimas palavras trocadas, já fora do ar, entre o líder do Movimento dos Trabalhadores Sem-terra (MST), Josmar Choptian e o presidente da Sociedade Rural do Paraná (SRP), Manoel ‘Neco’ Garcia Cid. Ditas logo após o debate realizado entre eles, anteontem à noite, no estúdio da TV MIX, em Londrina, as duas frases dão bem a idéia do que ocorreu nas quase duas horas em que os dois - e outros debatedores -, ficaram frente às câmeras para discutir o conflituoso tema da reforma agrária.
Assunto por si só já explosivo, as relações entre as partes, no entanto, ficaram ainda mais tensas com o anunciado acampamento de 5 mil famílias que o MST está prometendo montar na região de Londrina. Como resposta, a Rural ameaçou com a formação de uma espécie de ‘‘polícia rural’’ para proteger, à bala, as propriedades rurais de invasões. Esse foi o clima sob o qual se desenvolveu o debate promovido pelo programa ‘‘Mesa do Produtor’’.
Na abertura do programa, o leiloeiro rural e mediador, Anibal Ferreira, explicou as regras do debate e, em seguida, começou o bate-boca. O primeiro a falar foi Neco Garcia. Após lembrar que o Paraná é o campeão das invasões de terra - 85 em todo o Estado -, Neco falou da ‘‘intranquilidade’’ dos proprietários rurais com o anunciado acampamento-gigante dos sem-terra; condenou a ação do MST e disse ser favorável à reforma agrária ‘‘desde que feita dentro da legalidade’’.
Retrucando, Josmar Choptian afirmou que ‘‘o Brasil é o segundo - o primeiro é o Paraguai -, país maior concentrador de terra do mundo’’ e que, em virtude disso, ‘‘existem 35 milhões de brasileiros passando fome e 4 milhões de agricultores sem terra’’. Josmar disse também que o ‘‘clima de guerra’’ instalado entre o MST e os fazendeiros é culpa do Governo Federal, que não cumpre suas metas de assentamento.
Segundo Josmar, apenas 14 famílias foram assentadas ano passado no Paraná. Neco desmentiu e disse que foram 900. ‘‘Concordo que a promessa foi assentar 900 famílias, acontece que não foram assentadas, estão morando debaixo de lona até hoje’’, respondeu Josmar. ‘‘Se você alega que esse número de famílias é verdadeiro, por que o MST incita as invasões em vez de pressionar o Governo para cumprir os compromissos assumidos?’’, indagou Neco.
Reafirmando que até 15 de março não acontecerá nenhuma invasão no Paraná, exceto ‘‘nas terras improdutivas onde só tem cobra e capim, nas terras griladas e naquelas dos caloteiros do Banco do Brasil’’, Josmar despertou a curiosidade de Anibal Ferreira que, deixando de lado a mediação, quis saber ‘‘onde estão as fazendas de cobra e capim’’ e se o MST ‘‘virou cobrador do Banco do Brasil’’.
‘‘De cobra e capim é a fazenda Chafic aqui perto, em Tamarana, totalmente improdutiva. Quanto às terras dos caloteiros do Banco do Brasil, o produtor que é sério, que aplica o dinheiro do empréstimo na terra, na produção, não precisa se preocupar. Agora, aqueles que desviam o dinheiro para outras coisas, esses são os caloteiros, as terras desses nós invadimos’’, sentenciou Josmar.
‘‘Não é verdade que vocês estão só invadindo terras improdutivas. Vocês invadiram a propriedade do senhor José Alves Padilha, em Tamarana, que é totalmente produtiva. O MST vive provocando delitos, invadindo terras e, agora, ainda tem a petulância de dizer que vai fazer um acampamento aqui em Londrina’’, interferiu o advogado da SRP e ex-juiz de direito, Edson Deliberador. ‘‘E se o dirigente do MST - continuou Deliberador - se coloca no lugar do juiz, decidindo sobre qual propriedade a se invadir, e se decide sobre quem é ou não é caloteiro do Banco do Brasil, deveria ocupar um cargo dentro do Poder Judiciário.’’
Ainda sobre o mesmo assunto, o presidente da Sociedade Rural entrou na conversa dizendo que estranhou o líder sem-terra José Rainha ter conseguido um empréstimo de R$ 2,8 milhões para o MST do Pontal do Paranapanema, em São Paulo, enquanto o produtor, pra conseguir qualquer empréstimo junto aos bancos, tem que hipotecar a propriedade. ‘‘Somente o aval de um homem procurado pela Justiça é suficiente pra garantir o empréstimo’’, insinuou Neco Garcia.
‘‘Os agricultores sem-terra não fazem empréstimo pra ir pra Miami, pra andar de avião, comprar carro novo. O empréstimo é pra matar a fome do pessoal. E, além do mais, o Rainha é acusado de dois crimes - mas foi provado que ele não estava no local -, no conflito pela terra e não por roubo. O trabalhador sem-terra tem moral’’, devolveu Josmar, mas Neco não se deu por vencido e provocou o sem-terra dizendo que viu os trabalhadores do Pontal utilizando tratores para ‘‘passear na rodovia e para invasões de terra’’.
Também participando do debate, o assentado da Fazenda Ingá, José Damasceno de Oliveira, retomou o tema da discussão e utilizou o seu próprio exemplo para defender a reforma agrária que, segundo ele, é a única medida para resolver o problema agrícola do Brasil, sob pena de haver uma explosão social. ‘‘Pela minha recuperação financeira e capitalização, a reforma agrária é a solução para a fome no País’’, disse ele.
Após o primeiro intervalo, respondendo a uma pergunta feita por um telespectador, que queria saber a sua ficha completa, Josmar, após fornecer todos os seus dados, concluiu dizendo que estudou só até o 2º grau ‘‘porque o capitalismo não me deu oportunidade de estudar mais’’. Neco não perdeu tempo: ‘‘Você fala tanto contra o capitalismo, por que não muda para Cuba, China ou para a Rússia?’’
‘‘Somos patriotas e temos o direito de ficar na escravidão do Brasil’’, retrucou Josmar. ‘‘Escravidão é na China, onde um trabalhador ganha dois dólares por mês’’, devolveu o presidente da SRP, lembrando que a pecuária é a atividade que ‘‘oferece o maior número de empregos - 7 milhões, segundo ele -, no Brasil’’.
O assentado José Damasceno entrou de novo no debate: ‘‘Se vocês conhecerem um assentamento, vão sentir a diferença entre um assentado e um favelado. Uma pesquisa da FAO diz que uma família assentada recebe até 3,7 salários mínimos, uma capitalização de mais de 200% e que reduziu a mortalidade infantil. Precisa ver minhas crianças: são sadias, estão gordas, vermelhas, todas estudando, se alimentando bem’’, garantiu Damasceno, destacando que os seus 6 alqueires de terra geram 4 empregos, ou seja, para ele a mulher e 2 filhos.
Para provocar, o presidente da SRP quis saber de Damasceno qual a média de produção de milho no assentamento. Observando que, além de milho, produz batata, feijão, arroz, porco, galinha - ‘‘Diversifico a produção e dá bem pra minha família’’ - Damasceno disse que produz 150 sacas de milho por alqueire, uma média, reconhece, ‘‘muito aquém da que consegue os grandes fazendeiros, mas planto com as minhas condições, sem recurso nenhum’’.
Neco Garcia continuou provocando: ‘‘Nós podemos invadir sua terra porque ela é improdutiva. Essa produção, 150 sacas por alqueire, é a média histórica dos índios astecas, do México’’. ‘‘Seu Neco, onde não produzia nada, está produzindo 150 sacas de milho - e o milho não é a minha principal produção -, e estou sustentando a minha família de 6 pessoas’’, sustentou Damasceno.
No segundo bloco do debate, entraram em cena os proprietários rurais Gilberto Santos e José Alves Padilha, este com a fazenda invadida desde novembro do ano passado. Lembrando do conflito armado ocorrido há algum tempo na fazenda Guairacá, entre sem-terras e a polícia, Gilberto Santos pediu aos líderes do MST que respeitem o direito à propriedade e desistam do acampamento prometido para a região de Londrina.
‘‘Toda Londrina não chega a ter 100 mil alqueires e, para assentar 5 mil famílias, são necessários mais de 50 mil alqueires. Não existe essa terra. Essas pessoas vão tumultuar e disputar o mercado de trabalho com os trabalhadores da cidade’’, observou Santos.
Josmar, em resposta, disse exatamente o oposto: ‘‘Essas famílias não vêm para Londrina; pelo contrário, nós vamos tirar essas pessoas de Londrina onde estão pedindo esmolas, os filhos sem educação, se drogando, essas famílias vão voltar pro campo, vão sair da periferia e ocupar as terras improdutivas. Mas fiquem tranquilos, essas ocupações não serão feitas em Londrina e o acampamento será em Tamarana’’.
Exibindo documentos que comprovam a propriedade da terra e afirmando ser a sua terra totalmente produtiva, o produtor rural José Alves Padilha está lutando para se livrar dos invasores. ‘‘Estou até agora sem saber a razão deles terem invadido. Minha fazenda não é latifúndio, são 127 alqueires, sendo que 35 é banhado, planto milho em 50 alqueires e o resto é pastagem.’’
Josmar concorda que a fazenda de Padilha é realmente produtiva e que a invasão foi feita por algumas famílias vizinhas que ficaram sabendo que a área está com pendência judicial - ‘‘Eles contestam a legalidade da documentação’’ -, fato que, disse o dirigente do MST, criou o clima de ocupar a terra. ‘‘Seo Padilha não tem o que temer e tem todo o direito de lutar pela sua propriedade’’, afirmou Josmar, acrescentando, porém, que não tem poder - ‘‘Não somos juiz’’ - para tirar os invasores de lá.
O debate foi chegando ao fim. Depois de afirmar que, após o dia 15 de março, a polícia vai agir e cumprir as reintegrações de posse nas áreas invadidas, o presidente da SRP advertiu: ‘‘Foi comprovada aqui, hoje, a intenção do MST de promover novas invasões de terra. Quero, então, avisar os produtores rurais do Paraná que estamos contratando empresas de vigilância rural, homens com armas de fogo, para proteger as propriedades que estão na iminência de uma invasão. A partir de agora haverá reação dos proprietários’’.
Neco disse também que a SRP vai colaborar com a reforma agrária convocando aqueles proprietários que queiram vender suas terras e, além disso, cadastrar os pequenos proprietários para que eles peguem essas terras em vez do pessoal do MST. ‘‘Será aquele agricultor de mão calejada. Serão treinados por nós para produzir e não pra fazer aquela produção dos assentados da fazenda Ingá que não representa nada’’, concluiu Manoel Garcia Cid.
Josmar Choptian foi breve: ‘‘Nós também vamos nos armar com foices e enxadas, mas não para um conflito e sim para produzir. Só os inimigos do Brasil e da humanidade são contra a reforma agrária. Que vença aquele que tem proposta para a maioria da população e, como a maioria, 90%, está conosco, nós vamos vencer. Mas fiquem tranquilos: só vamos fazer cumprir a Constituição, que diz que toda terra improdutiva pode ser usada pra reforma agrária’’.

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