MST denuncia violência em carta para Esquivel
Especial para a Folha
Representantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) e do Movimento Nacional de Defesa dos Direitos Humanos entregaram ontem, em Curitiba, ao professor Adolfo Perez Esquivel, prêmio Nobel da Paz de 1980, documentos com denúncias de violência praticadas contra trabalhadores sem-terra, durante a desocupação de duas fazendas no Noroeste do Paraná. As entidades estão entregando os documentos à personalidades para pressionar a investigação dos fatos e a liberação de 41 integrantes do MST, que foram presos durante a desocupação de 14 fazendas nas últimas semanas.
Um depoimento escrito por José Geraldo dos Santos, 84 anos, relata que durante a desocupação da Fazenda Cobrico, no município de Santa Cruz do Monte Castelo, ele recebeu um chute de um policial, na altura da costela e, derrubado no chão, recebeu outros chutes. Junto com o depoimento de José Geraldo, o MST entregou a Esquivel o resultado de uma tomografia computadorizada de coluna, assinado pelo médico Gilberto Minguetti, de Curitiba, mostrando que o paciente Geraldo José dos Santos está com duas vértebras quebradas. Ele está internado há nove dias no Hospital Erasmo de Roterdan, em Curitiba.
Segundo a carta escrita por José Geraldo, a desocupação ocorreu à 1h30 do dia 22 de maio. Os policiais teriam chegado encapuzados, acordado os acampados com tiros e bombas, e demolido os barracos.
Uma segunda carta foi entregue à Esquivel, com o depoimento de Valdecir Bordignon, preso dia 29 de abril, na desocupação da Fazenda Santa Maria, em Ortigueira, e que permanece no presídio de Ponta Grossa. Na carta - que o MST pede que seja traduzida para outros idiomas e enviada para o mundo inteiro -, Valdecir afirma que foi torturado por duas horas e meia, no dia da prisão. Meus braços foram algemados e na tortura teve afogamento, enforcamento, espancamento com pisoteio na barriga. Tiraram minha roupa e ameaçaram estrupar-me com uma cana de açúcar. Colocaram-me de joelhos em frente a um monte de esterco , encostaram uma faca no meu pescoço e me fizeram comer mais ou menos meio quilo de esterco, relata o preso que acusa o Grupo de Operações Especiais (GOE) e a P-2, serviço secreto da Polícia Militar, como responsáveis pela tortura.
Esquivel disse que vai denunciar as práticas de violência e que, infelizmente, tem ouvido relato de maus tratos contra movimentos populares, em todos os países por onde passa. Os sistemas políticos vigentes no mundo não respondem às necessidades do povo. Só a organização da sociedade poderá mudar esta situação, afirma o prêmio Nobel da Paz. Ele disse que esteve com o Governador Jaime Lerner, na noite de segunda-feira, e foi informado que as denúncias serão investigadas.





