Arquivo Folha/Josoé de CarvalhoO que fazerO diretor do MST, Josmar Choptian: objetivo é arregimentar famílias de desempregados nas periferias


Agora é pra valer: a partir da próxima sexta-feira, líderes do Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra (MST), estarão percorrendo as periferias de quatro cidades da região de Londrina. Eles querem iniciar um processo de conscientização e arregimentar famílias de trabalhadores desempregados para o grande acampamento que pretendem fazer em março.
A decisão foi tomada por 54 líderes do MST da região de Londrina, que estiveram reunidos semana passada na fazenda Ingá, perto de Bela Vista do Paraíso, para discutir esse e outros assuntos de interesse do movimento para 97. Segundo Josmar Choptian, da regional de Londrina e da direção estadual do MST, o trabalho de organização do acampamento vai se desenvolver em quatro grandes pólos - Londrina, Tamarana, Mauá da Serra e Maringá -, e sua montagem não tem nada a ver com o acordo feito entre a direção do MST e a superintendência do Incra do Paraná na última sexta-feira.
‘‘O que foi negociado é que não vamos fazer nenhuma ocupação dentro de 45 dias. Mas acampamento não é ocupação e ele vai continuar sendo organizado conforme o planejado’’, diz Josmar, informando que, inicialmente, os líderes do MST, quatro em cada pólo, vão procurar manter contato com presidentes de associações de moradores de bairros, com sindicatos e, onde não houver nenhum tipo de organização, identificar líderes em potencial.
‘‘Essas organizações e essas pessoas é que vão assumir o papel de convidar e mobilizar os moradores para participar das reuniões a fim de discutir a reforma agrária e, também, se desejam participar do acampamento’’, detalha o lider sem-terra. Ele também conta que a idéia é iniciar o acampamento com um mínimo de mil famílias, número que, acredita, poderá chegar a cinco mil.
‘‘A nossa perspectiva de um grande acampamento é elevada por causa da política neoliberal do governo FHC, que está gerando um exército de trabalhadores desempregados e sem nenhuma alternativa de sobrevivência. E é esse exército de desempregados que vamos buscar para o acampamento’’, destaca Josmar.

‘Acampamento não
é ocupação’, diz
o líder do MST,
Josmar Choptian


Ele também informa que, nessa nova etapa de vanguarda dos ‘‘sem-nada’’, o MST vai respeitar as opções de cada um. ‘‘O importante é que todos entendam da importância de ter organização; de estar unidos; de cada um entrar na luta pelo seu direito. Depois cada um segue seu rumo. Aqueles que não quiserem lutar pela terra, nós vamos incentivar para que lutem na cidade por moradia, emprego, educação e saúde’’, explica.
Segundo Josmar, os trabalhadores terão uma coordenação devidamente acompanhada pelo MST que, entre outras atividades, ministrará cursos de formação ideológica, principalmente para as lideranças. ‘‘A nossa estratégia é não cair nos mesmos equívocos de organizações do passado’’, diz o líder do MST, citando as Ligas Camponesas do Nordeste e a chamada Guerra do Contestado, levante camponês acontecido no início do século na divisa do Paraná com Santa Catarina. ‘‘Na luta pela reforma agrária, os trabalhadores do campo não podem ficar isolados dos trabalhadores urbanos, têm possibilidades de desenvolver lutas em conjunto.’’
Voltando ao acampamento, Josmar diz que, ‘‘a princípio’’, ele será montado na área social do assentamento da fazenda Serraria, em Tamarana, mas que poderá ser instalado noutro local ‘‘caso se agilize a aquisição de terras ao norte de Londrina’’. Está descartado o acampamento a margem de rodovias - ‘‘É muito sofrimento, não tem água, não tem lenha, nem madeira pro barraco’’ -, por falta de estrutura mínima para os acampados sobreviverem.
E por que em Londrina? ‘‘Primeiro, pela ótima postura do Governador do Estado em relação às áreas de conflito, ou seja, não colocando a polícia para despejar e, sim, partindo pra negociação; segundo, o entendimento político que os proprietários de terra da região de Londrina estão tendo com relação a venda de terras para que se faça a reforma agrária; terceiro, o empenho que o Incra do Paraná está fazendo para desapropriar as áreas ofertadas’’, analisa Josmar.
O dirigente do MST informa ainda que só na região de Londrina há mais de 8.000 alqueires de terra ofertadas para reforma agrária, área que, diz, dá para assentar cerca de 1.500 famílias. Indagado se um acampamento de tal porte não vai assustar os proprietários rurais e o Governo, Josmar busca tranquilizar uns e outros: ‘‘Não vamos fazer nenhuma ocupação com conflito, mesmo porque já há canais de negociações em torno das terras já ofertadas’’.
No encontro da fazenda Ingá, segundo Josmar, as lideranças também decidiram pela criação da cooperativa de trabalhadores assentados da região de Londrina, entidade que será fundada entre os dias 25 e 28 de fevereiro e sediada no assentamento da fazenda RR, em Ortigueira. A Marcha Nacional pela Reforma Agrária, Emprego e Justiça, marcada para sair dia 17 de fevereiro de três pontos distintos - Governador Valadares (MG), Cuiabá (MT) e São Paulo - também foi discutida na fazenda Ingá.
Na Marcha, cerca de 1.500 trabalhadores de todo o Brasil estarão caminhando pelas estradas durante dois meses em direção à Brasília. Cerca de 200 vão sair do Paraná. A chegada no Distrito Federal está prevista para 17 de abril que, segundo Josmar, foi consagrado como o Dia Internacional da Luta pela Terra. A data foi escolhida devido ao massacre do Eldorado do Carajás, no Pará, onde morreram 19 sem-terra, em 17 de abril do ano passado. Josmar comenta: ‘‘Esperamos uma grande repercussão nacional para alavancar ainda mais o processo de luta pela terra.’’

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