MST acusa Lerner; UDR denuncia crimes
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sábado, 17 de junho de 2000
Valmir Denardin De Curitiba 
Os líderes do MST e da UDR têm, naturalmente, posições diametralmente opostas sobre o balanço de inquéritos envolvendo sem-terra no Paraná. De um lado, o MST acusa o governo do Estado de tentar criminalizar as ações do movimento. Do outro, a UDR diz que o número de crimes praticados pelos integrantes do MST seria muito maior.
Roberto Baggio, 36 anos, principal líder do MST no Paraná, avalia que o número de 124 inquéritos policiais abertos nos últimos oito anos revela a perseguição política desencadeada pelo governo Jaime Lerner (PFL) para criminalizar as ações do movimento no Estado. O governo, integrado pela elite ruralista, se especializou no tratamento policial a uma questão social.
Segundo levantamento feito pelo MST e a Comissão Pastoral da Terra (CPT), desde 95 início do primeiro mandato de Lerner como governador ocorreram no Estado 14 assassinatos, 31 tentativas de assassinato, 454 prisões, 322 casos de lesão corporal, 45 ameaças de morte e cinco casos de tortura contra integrantes do movimento. Esses números, de acordo com o levantamento, foram muito menores nos três governos anteriores (Roberto Requião, Alvaro Dias e José Richa).
O governo trata de forma desigual o MST e os fazendeiros. Usa todo seu aparelho de repressão contra os trabalhadores, mas não faz nada contra os fazendeiros, que contratam milícias armadas. Eles matam e torturam e estão protegidos pelo Estado. Prova disso é que não há um único fazendeiro ou pistoleiro preso no Paraná, afirma Baggio.
O advogado da CPT, Darci Frigo, apresenta dois documentos que comprovariam a decisão governamental de criminalizar as ações do MST. O primeiro é a Resolução número 149/99. Assinada pelo ex-secretário de Segurança Cândido Martins de Oliveira, ela ordena que as polícias Civil e Militar façam todos os esforços para impedir a invasão de áreas pelo MST. Se isso ocorrer, a desocupação deve ser feita em 48 horas. O outro documento, também assinado por Cândido Martins, ordena a todas as delegacias do Estado prender, autuar e indiciar líderes e integrantes do MST envolvidos em invasões.
Frigo diz que, no período englobado pelo levantamento obtido pela Folha, os fazendeiros cometeram crimes bem mais graves e não há nenhum fazendeiro ou pistoleiro preso. Isso, na opinião de Baggio, é resultado da atuação de um Judiciário submisso aos interesses políticos do governo.
A União Democrática Ruralista (UDR), entidade que reúne os grandes produtores rurais, considera que o número de 124 inquéritos policiais abertos no Estado nos últimos oito anos contra o movimento é pequeno em relação aos crimes praticados. É um volume muito pequeno. Muitos dos crimes desse movimento de quadrilheiros e bandidos não saíram em BO (boletim de ocorrência), diz o coordenador da UDR no Paraná, Tarcísio Barbosa de Souza, 45 anos.
Os líderes desse movimento têm de ser responsabilizados por formação de quadrilha, cárcere privado, furto de gado e tratores e inúmeros outros crimes, como usar pobres, mulheres e crianças como massa de manobra nas invasões, afirma Souza, que se considera um pequeno produtor de Paranavaí, sem revelar a extensão de suas propriedades. Esses crimes só vão acabar quando as lideranças forem responsabilizadas.
Souza diz que a UDR tem conhecimento de três casos, apenas no Noroeste do Estado, de integrantes do MST que estariam sofrendo pressões e ameaças de morte por discordar da atuação do movimento e tentar abandonar a militância.
Na opinião do produtor rural, as lideranças do MST são comunistas, que só querem o poder político para implantar uma república socialista no Brasil. Usam a bandeira da reforma agrária, mas os únicos beneficiados são as lideranças, que compram carros e apartamentos com o dinheiro público desviado (dos acampamentos e assentamentos), acusa.
Souza defende também a exclusão do MST do processo de reforma agrária e a municipalização da distribuição de terras. Essa distribuição, segundo ele, tem de ser feita por uma comissão formada por integrantes do Judiciário, das Câmaras Municipais, prefeituras e representantes dos trabalhadores rurais em cada município. No governo Fernando Henrique foram gastos R$ 12 bilhões em um programa que não deu certo e diminuiu a produção.


