Os líderes do MST e da UDR têm, naturalmente, posições diametralmente opostas sobre o balanço de inquéritos envolvendo sem-terra no Paraná. De um lado, o MST acusa o governo do Estado de tentar ‘‘criminalizar’’ as ações do movimento. Do outro, a UDR diz que o número de crimes praticados pelos integrantes do MST seria muito maior.
Roberto Baggio, 36 anos, principal líder do MST no Paraná, avalia que o número de 124 inquéritos policiais abertos nos últimos oito anos revela a ‘‘perseguição política’’ desencadeada pelo governo Jaime Lerner (PFL) para criminalizar as ações do movimento no Estado. ‘‘O governo, integrado pela elite ruralista, se especializou no tratamento policial a uma questão social.’’
Segundo levantamento feito pelo MST e a Comissão Pastoral da Terra (CPT), desde 95 – início do primeiro mandato de Lerner como governador – ocorreram no Estado 14 assassinatos, 31 tentativas de assassinato, 454 prisões, 322 casos de lesão corporal, 45 ameaças de morte e cinco casos de tortura contra integrantes do movimento. Esses números, de acordo com o levantamento, foram muito menores nos três governos anteriores (Roberto Requião, Alvaro Dias e José Richa).
‘‘O governo trata de forma desigual o MST e os fazendeiros. Usa todo seu aparelho de repressão contra os trabalhadores, mas não faz nada contra os fazendeiros, que contratam milícias armadas. Eles matam e torturam e estão protegidos pelo Estado. Prova disso é que não há um único fazendeiro ou pistoleiro preso no Paranᒒ, afirma Baggio.
O advogado da CPT, Darci Frigo, apresenta dois documentos que comprovariam a decisão governamental de criminalizar as ações do MST. O primeiro é a Resolução número 149/99. Assinada pelo ex-secretário de Segurança Cândido Martins de Oliveira, ela ordena que as polícias Civil e Militar façam todos os esforços para impedir a invasão de áreas pelo MST. Se isso ocorrer, a desocupação deve ser feita em 48 horas. O outro documento, também assinado por Cândido Martins, ordena a todas as delegacias do Estado ‘‘prender, autuar e indiciar’’ líderes e integrantes do MST envolvidos em invasões.
Frigo diz que, no período englobado pelo levantamento obtido pela Folha, ‘‘os fazendeiros cometeram crimes bem mais graves e não há nenhum fazendeiro ou pistoleiro preso’’. Isso, na opinião de Baggio, é resultado da atuação de um ‘‘Judiciário submisso aos interesses políticos do governo’’.
A União Democrática Ruralista (UDR), entidade que reúne os grandes produtores rurais, considera que o número de 124 inquéritos policiais abertos no Estado nos últimos oito anos contra o movimento é pequeno em relação aos crimes praticados. ‘‘É um volume muito pequeno. Muitos dos crimes desse movimento de quadrilheiros e bandidos não saíram em BO (boletim de ocorrência)’’, diz o coordenador da UDR no Paraná, Tarcísio Barbosa de Souza, 45 anos.
‘‘Os líderes desse movimento têm de ser responsabilizados por formação de quadrilha, cárcere privado, furto de gado e tratores e inúmeros outros crimes, como usar pobres, mulheres e crianças como massa de manobra nas invasões’’, afirma Souza, que se considera um ‘‘pequeno produtor’’ de Paranavaí, sem revelar a extensão de suas propriedades. ‘‘Esses crimes só vão acabar quando as lideranças forem responsabilizadas.’’
Souza diz que a UDR tem conhecimento de três casos, apenas no Noroeste do Estado, de integrantes do MST que estariam sofrendo ‘‘pressões e ameaças de morte’’ por discordar da atuação do movimento e tentar abandonar a militância.
Na opinião do produtor rural, as lideranças do MST são ‘‘comunistas, que só querem o poder político para implantar uma república socialista’’ no Brasil. ‘‘Usam a bandeira da reforma agrária, mas os únicos beneficiados são as lideranças, que compram carros e apartamentos com o dinheiro público desviado (dos acampamentos e assentamentos)’’, acusa.
Souza defende também a exclusão do MST do processo de reforma agrária e a municipalização da distribuição de terras. Essa distribuição, segundo ele, tem de ser feita por uma comissão formada por integrantes do Judiciário, das Câmaras Municipais, prefeituras e representantes dos trabalhadores rurais em cada município. ‘‘No governo Fernando Henrique foram gastos R$ 12 bilhões em um programa que não deu certo e diminuiu a produção.’’

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