A Frente de Proteção do Rio Tibagi entregou ontem ao procurador da República João Akira Omoto um abaixo-assinado com 10,5 mil rubricas contra a construção da Usina Hidrelétrica Mauá, entre Ortigueira e Telêmaco Borba. As assinaturas foram colhidas por voluntários em diversos municípios do Paraná. O ato ocorreu durante um evento voltado a discussões sobre a biodiversidade e os conflitos do Tibagi, que reuniu cerca de 150 pessoas na Universidade Estadual de Londrina (UEL).
Além do grande número de adesões individuais, expressas pelo abaixo-assinado, o movimento em defesa de um dos rios mais importantes do Paraná vem sendo engrossado por entidades, instituições acadêmicas, representantes do Ministério Público (MP) e até empresas. Foi graças a um grupo de empresários que 28 índios da reserva Kaingang de Mococa, em Ortigueira, conseguiram um ônibus para trazê-los ao evento na UEL. ''Os empresários preferiram não se expôr temendo pressões políticas, mas fizeram questão de contribuir'', afirmou irmã Rosa Martin, uma das maiores entusiastas do movimento pelo Tibagi.
O kaingang Luiz Amaral, que trabalha para a Funai, disse que seu povo está determinado em impedir a construção da UHE Mauá, que atingiria direta e indiretamente pelo menos cinco aldeias da Bacia do Tibagi - Mococa, Barão de Antonina, São Jerônimo, Apucarana e Queimados. ''Estamos lutando para que não aconteça. O Rio Tibagi é nossa vida, nosso alimento'', atestou.
Há pouco mais de dois meses, pesquisadores da UEL e Universidade Estadual de Londrina (UEL) extraíram novas mostras da importância do Tibagi em termos biológicos, sociais e históricos. Na região da aldeia Mococa, foram coletadas amostras de peixes ainda não catalogados pela ciência e material arqueológico datado de pelo menos 13 mil anos. Antropólogas aproveitaram para registrar a tradicional pesca kaingang, feita com armadilhas de taquara e exclusiva de rios de corredeira, como o Tibagi.
Todo este material vem auxiliando o Ministério Público Federal (MPF) a embasar ações contra a usina. Segundo o procurador da República de Londrina, seu trabalho ganha força com a entrega do abaixo-assinado. ''Esse documento tem uma força tremenda. Já se pode até pensar em ingressar com um projeto de lei de iniciativa popular'', comentou.
Na semana passada, Omoto entrou com pedido na 1 Vara de Justiça Federal de Londrina para que continue valendo uma liminar obtida em dezembro de 2005, que retirou a UHE Mauá do leilão da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). Ele quer impedir que o empreendimento entre no novo leilão de energia, marcado para o próximo dia 10.
A tendência é que a Justiça mantenha o entendimento de que nenhuma usina pode ser construída no Tibagi enquanto não houver um estudo de toda a bacia. Irregularidades no Estudo de Impacto Ambiental (EIA) apresentado pela empresa CNEC Engenharia e aprovado pelo governo estadual já provocaram até um pedido de afastamento do secretário de Estado de Meio Ambiente, Rasca Rodrigues. ''Acredito na força da Lei, do Direito e da Justiça. Já conseguimos barrar outros dois empreendimentos no Paraná, as usinas de Salto Grande e Baixo Iguaçu'', ressaltou o procurador.

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