Uma filha vítima de doença rara e gravíssima, que não conseguia tratamento no hospital; o outro filho com problemas para confirmar a paternidade de uma criança; o marido com divórcio pendente; uma casa adquirida na Companhia de Habitação (Cohab) cuja prestação ficou cara demais para o orçamento da família.
Quando uma cidadã como a garçonete Inês Maria de Souza, 42, não consegue fazer cumprir os próprios direitos, os problemas vão se acumulando. A lista de dificuldades mencionadas acima, todas enfrentadas pela família de Inês, já poderia estar bem maior se ela não tivesse contado com o programa ''Promotoria nas Comunidades'', que acaba de completar oito anos. Fruto do trabalho voluntário de 12 promotores de Justiça de Londrina, com a colaboração da prefeitura e de estagiários da Universidade Estadual de Londrina (UEL), o projeto já atendeu 34.661 pessoas em todas as regiões da cidade.
Deixando os gabinetes para entrar em contato com a população mais humilde diretamente nos bairros, os promotores se deparam com questões ligadas à família, saúde, habitação, drogas, violência doméstica, falta de documentação e inúmeras outras. Na grande maioria dos casos, os problemas levados ao conhecimento dos voluntários são individuais e exigem soluções imediatas, muitas vezes exigindo esforços além da esfera judicial.
''Minha filha Vivian tem uma doença muito rara e há anos tentávamos conseguir tratamento para ela. Enquanto o hospital nos pedia para esperar, víamos ela emagrecer e perder sangue a cada dia. Então pedi ajuda ao pessoal do Ministério Público (MP). No outro dia conseguiram que a Vivian fosse internada'', relata Inês de Souza, que hoje vê a filha com saúde aos 23 anos.
A partir daí, a garçonete descobriu que podia contar com o MP para reivindicar seus direitos de cidadã. Com o intermédio dos voluntários, negociou as prestações da casa com a Cohab e obteve desconto num exame de paternidade para o filho. Agora é seu marido, o corretor de automóveis Maurílio, 41, quem vai resolver uma pendência pessoal. ''Me separei da outra esposa há 10 anos mas não fui atrás do divórcio por falta de dinheiro. Finalmente acho que vou conseguir'', diz.
De acordo com o promotor Paulo Tavares, coordenador do programa, os principais problemas atendidos dizem respeito à família. São centenas de pedidos de pensão alimentícia, guarda dos filhos e divórcios. Para ele, isso é um termômetro do que acontece nas camadas mais humildes, onde a falta de perspectiva, as drogas e o alcoolismo levam à desestruturação das famílias.
''Só quando os problemas individuais são resolvidos é que as pessoas começam a pensar nos problemas coletivos. Às vezes elas nos procuram apenas para pedir uma informação, uma ajuda para conseguir a segunda via de um documento. Esse trabalho voluntário nada mais é que a possibilidade que o MP tem de resgatar a cidadania da população, aproximar-se da população mais carente e, assim, cumprir efetivamente o seu papel'', afirma Tavares.

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