Movimento também enfrenta problemas
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segunda-feira, 12 de outubro de 1998
Alexandre Sanches 
Apesar de ser o maior e mais organizado movimento de esquerda do País, o MST também tem problemas. Durante a retirada de famílias de sem terra da Fazenda Nossa Senhora Aparecida, em Alvorada do Sul (68 km ao norte de Londrina), em setembro do ano passado, pessoas citadas como líderes do acampamento denunciaram ter sido iludidas pelo MST e sindicatos de trabalhadores rurais da região Sudoeste do Estado. Parte das famílias era de ex-brasiguaios - brasileiros que foram trabalhar como agricultores no Paraguai.
Na desocupação, alguns sem-terra foram detidos pela polícia. Um deles, Porfírio João Machado, afirmou que o grupo foi usado pelo MST. Eles nos prometeram o paraíso, disseram que teríamos terra dois meses após a ocupação e financiamento para plantio. Tudo mentira. Se soubesse que iria ser preso, continuaria como bóia-fria, desabafou.
Já o ex-brasiguaio Laudelino Camargo disse que os presidentes dos sindicatos e membros do MST haviam garantido que as famílias receberiam lotes de terra caso entrassem no movimento. Ele afirmou ainda que viveu debaixo de lona cumprindo ordens do MST. As informações foram formalizadas nos depoimentos.
As mulheres dos sem-terra presos foram levadas no dia 14 de setembro de volta ao Sudoeste do Estado. Desesperada, uma delas chegou a alegar que o governo teria que devolvê-la ao Paraguai, de onde saiu para poder ter alguma coisa.
Antes de invadirem a Fazenda Nossa Senhora Aparecida, as famílias ficaram acampadas durante quatro meses na Fazenda Ingá - o mais antigo assentamento na região Norte do Estado -, em Alvorada do Sul, onde receberam instruções sobre as ocupações de terra, juntamente com outras centenas de famílias que engrossaram as fileiras com o sonho de ganhar um pedaço de terra.
O acampamento na Fazenda Ingá fez parte de um plano do MST de montar grande unidade de acampados na região, preparando as famílias para ocupar várias fazendas nos municípios vizinhos. Pelos cálculos do movimento na ocasião, cerca de 1.500 famílias receberam instruções.
O serviço de recrutamento percorreu a periferia de cidades como Londrina, Jataizinho, Ibiporã e Cambé, além de grupos de sem-terra das regiões Oeste e Sudoeste do Paraná. O grupo que lidera o assentamento da Fazenda Ingá - ainda em litígio na Justiça - é da região Sudoeste.
Das famílias recrutadas, muitas não tinham qualquer ligação com o campo. Participavam sapateiros, donas de casa, vendedores, trabalhadores autônomos e de outras profissões, atraídos pela promessa de terra. Alguns possuiam casa própria ou outro tipo de imóvel.


