Marcos NegriniBecker, do MST: educação e saúdeEm Querência do Norte não se fala em outra coisa além de reforma agrária. O assunto está em cada esquina, nos botecos, bancos de praça, igreja e escolas. A maioria dos comerciantes de Querência costuma apoiar as manifestações realizadas pelo MST. O que andou incomodando foi o recurso constante ao fechamento do comércio, para chamar a atenção da imprensa e, por sua vez, das autoridades.
O gerente do Banco do Brasil, Nelson Rangel, há um ano na cidade, diz que a instituição é parceira do produtor e defende a reforma agrária. A única ressalva é por conta das paralisações do comércio, que segundo ele prejudicam a agência.
Para o comerciante Roque Regina, que tem um restaurante no centro da cidade, a situação piorou. ‘‘Antes a gente via mais fartura na cidade’’, reclama. Ele diz que antes das várias invasões de fazendas no município o comércio tinha mais movimento. Naturalmente, nunca fechava as portas.
A comerciante Salete Helena Vivian Sposito, dona de um supermercado em Querência, diz o contrário. Para ela, as vendas aumentaram com a chegada dos sem-terra. ‘‘Eles compram bastante da gente, e eu estou contente com o movimento’’.
Salete espera que as famílias que hoje estão em áreas invadidas sejam assentadas, para que as vendas melhorem ainda mais e não seja mais preciso fechar as portas em novos protestos.

Marcos NegriniSalete: fim dos arrendamentosEla só lamenta a falta dos irmãos, que arrendavam terras no município e foram embora para o Mato Grosso do Sul. ‘‘Aqui ninguém mais arrenda terra’’. A constatação de Salete mostra que hoje o trabalhador rural ou urbano ‘‘que se preze’’ na região prefere mesmo é ocupar terra. Arrendar é coisa do passado.
‘‘A reforma agrária não é apenas dar um pedaço de terra para o trabalhador, mas também educação e saúde, e vamos lutar por isso’’, afirma um dos líderes do MST em Querência do Norte, Delfino Becker.
Ele diz que o MST vai aceitar as desocupações à medida que o Incra indique propriedades para assentamento. O número de famílias em cada área dependerá da capacidade de produção da propriedade definida pelo Incra. ‘‘Se a área for para 20 famílias, vamos levar apenas as 20 famílias.’’
O prefeito de Querência do Norte, Wanderlei Alves da Costa (PDT), teme o uso da força para a retirada dos sem-terra de áreas ocupadas. Outra preocupação do prefeito hoje é a falta de estrutura para responder ao crescimento da população, que aumentou 50% depois do advento das invasões de terra na região. Há seis meses, eram 10.500 habitantes. Hoje, são 5 mil moradores a mais, quase todos acampados na zona rural. ‘‘Não temos estrutura para atender toda essa gente e estamos buscando ajuda do estado e do governo federal’’, diz Costa.

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