O mototaxista Lourival de Jesus Silva, 47 anos, afirma que foi vítima de racismo em uma agência bancária do HSBC, em Londrina. Sem segurar as lágrimas, ele contou que sofreu o ‘‘maior constrangimento de sua vida’’ ao ser impedido de passar pela porta giratória que dava acesso aos caixas. O banco alega que utilizou um procedimento padrão de segurança.
  Silva, que é negro, contou que estava fazendo pagamentos de contas solicitados por clientes, como é habitual em sua profissão, quando se deparou com um obstáculo no HSBC da Avenida Bandeirantes (Área Central), por volta do meio-dia de anteontem. O detector de metais instalado na porta giratória que dá acesso aos caixas comuns continuou apitando, mesmo após ele ter se livrado de celular, chaves e moedas.
  ‘‘Eu falei que deveria ser por causa das minhas botas com ponteira de aço e até me dispus a tirá-las, mas os dois vigias insistiram em chamar o gerente. Ele pediu minha fatura e foi pagar por mim lá dentro, sem me deixar entrar’’, relatou Silva, para quem a atitude foi claramente racista. ‘‘Eu não queria atendimento diferenciado, queria ter o direito de pagar minha conta como qualquer usuário. Sou um trabalhador, não carrego arma, nunca tive passagem pela polícia. Fiquei na porta esperando, com o banco cheio, todo mundo olhando para mim. Em 47 anos, nunca tinha sofrido algo assim. Doeu’’, desabafou, chorando.
  O mototaxista ressaltou que na mesma tarde pagou faturas em outras duas instituições bancárias e não teve problema nenhum. Ele anunciou que pretende mover ação contra o banco por racismo.
  Por meio de sua assessoria de imprensa em São Paulo, o HSBC declarou que ‘‘é uma empresa contrária a qualquer tipo de discriminação’’, e que a situação relatada por Silva ‘‘não ocorreu por questão de raça, mas foi um procedimento padrão de segurança determinado em acordo entre a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) e autoridades de segurança’’. Segundo a assessoria, ‘‘sempre que a porta giratória é bloqueada o usuário não é autorizado a passar, independente se é branco ou negro, homem ou mulher’’.
  A instituição argumentou ainda que ‘‘o usuário não foi prejudicado, uma vez que o pagamento foi feito’’, e que os funcionários não consentiram que ele tirasse as botas ‘‘para evitar um constrangimento maior’’.
  O coordenador da Procuradoria de Defesa do Consumidor (Procon) em Londrina, Gerson da Silva, também enxergou o caso sob a ótica da segurança. ‘‘Quem atua no crime nesse segmento dos bancos são quadrilhas organizadas que observam todas as brechas na segurança. Se virem que o banco libera a passagem de clientes com botas de ponteira metálica, por exemplo, podem se aproveitar disso e colocar em risco a segurança de todos’’, exemplificou.
  Ele afirmou que situações como essa são comuns e lembrou que uma agência bancária brasileira já cogitou disponibilizar chinelos para evitar problemas como esse, mas descartou a medida por motivo de higiene. O coordenador explicou que o caso do mototaxista extrapola as atribuições do órgão, uma vez que o Código do Consumidor determina apenas que os serviços têm de ser prestados de forma eficiente e com segurança. ‘‘Só a Justiça terá o poder de decidir qual o direito preponderante: o do usuário de ter acesso ao local de serviço ou o direito coletivo à segurança’’, concluiu.
  O promotor de Defesa dos Direitos e Garantias Constitucionais de Londrina, Paulo Tavares, disse que precisaria ouvir o depoimento de Silva e do banco para se posicionar sobre o assunto.

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