Motoristas têm medo da última viagem
À noite, o policiamento prometido não é visível e terminais e ônibus se convertem em pontos de insegurança
Gangues entram nos
ônibus sem pagar,
abrindo à força as
portas de desembarque
Israel Reinstein
Albari RosaSem leiDepois das 22 horas, os ônibus circulam quase vazios, e motoristas não param em determinados pontos para evitar assaltosUma semana depois da morte do cobrador Bernardino Alves de Melo já não se vê mais policiais nos terminais mais perigosos de Curitiba. Anteontem à noite, nos terminais da CIC, Pinheirinho e Fazendinha nenhum policial fazia ronda. Nesses locais, onde os ônibus são assaltados com frequencia, cobradores e motoristas ainda têm medo de trabalhar. Além deles, lojistas dos terminais e passageiros temem por suas vidas. Mesmo com a insegurança, o comandante do Policiamento da Capital, coronel Reinaldo Machado, afirma que existe segurança e policiais nos terminais.
De acordo com cobradores e motoristas, a polícia esteve presente nos pontos perigosos apenas nos dois primeiros dias depois da morte de Bernardino. ‘‘Depois que diminuiu a pressão, eles desapareceram’’, diz o cobrador Lauro Lazzarini da Silva, que foi assaltado mais de 30 vezes na linha Sabará, na CIC.
O coronel Reinaldo Machado contesta que falte policiamento nos terminais. Para ele, o que aconteceu na noite de segunda-feira foi um desencontro entre os policiais que faziam a ronda e as pessoas que não viram os militares. ‘‘Pelo que sei, todo o nosso efetivo estava na rua’’, afirma o coronel, que prometeu para hoje uma resposta sobre o que aconteceu.
Medo - Quando são 22 horas e o número de passageiros diminui, os motoristas desconfiam de todas as pessoas, evitando abrir a porta ou pulando pontos para não serem assaltados. A partir deste horário, os assaltantes passam a vigiar os ônibus. E gangues invadem os coletivos, muitas delas recém-saídas de escolas da periferia, fumando maconha, cheirando solventes e colas ou brigando dentro do veículo. ‘‘A única coisa a fazer seria chamar a polícia, mas não existem policiais na região’’, diz Jorge Resende de Oliveira, motorista da linha Sabará, considerada uma das mais perigosas da cidade.
A violência não fica restrita apenas ao veículo. No terminal, os lojistas fecham as portas mais cedo ou adotam sistemas de segurança para evitar assaltos ou arrastões de pessoas.‘‘Aqui a situação é muito grave. Há pouco tempo, vi até um homem sacar a arma para matar a mulher, que o traía’’, conta o comerciante Antônio Lemos, proprietário de uma lanchonete.
Trabalhando há dez anos no mesmo ponto, ele diz não ter sofrido nenhum assalto. ‘‘Mas tudo graças a Deus e ao sistema de câmera de vídeos’’, afirma. Outros colegas dele já foram assaltados diversas vezes. ‘‘Não existe policiamento e quando ele é chamado demora para chegar’’, reclama.
Um dos vigias do terminal, que preferiu não se identificar, conta que é difícil controlar os jovens. ‘‘Quando acabam as aulas, eles vêm em bandos’’, descreve. Nos dias de jogos, o vigia pede para que os comerciantes não abram as portas. ‘‘Levas de torcedores se encontram e começam a brigar dentro do terminal. O máximo que posso fazer é chamar a polícia’’, afirma.
Mas são os motoristas e cobradores que têm maior problema. ‘‘Nos fins de semana, os jovens entram no ônibus fumando maconha ou cheirando tinner. Nessas horas, eles não respeitam ninguém’’, conta o motorista da Linha Vila Verde, Valdomiro Aparecido. Ele conta que quando estão assim, os jovens entram nos ônibus sem pagar, abrindo à força as portas de desembarque. ‘‘Se a molecada se irrita com você, ela parte para a agressão, podendo até destruir todo o carro como vingança’’, afirma.

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