De futebol e engenharia de trânsito, todo brasileiro entende um pouco. O problema é que, quando se trata da ordenação das ruas e dos espaços destinados aos carros, nem sempre as soluções populares ficam só na teoria. Diariamente acessos clandestinos são abertos, sinalizações feitas pelo poder público são encobertas e obstáculos colocados para impedir a passagem irregular são retirados. Na noite do último domingo um veículo que passava pelo atalho aberto pela população para atravessar a linha férrea no Jardim Nova Olinda (Zona Norte) foi atingido por um trem.
Ninguém ficou ferido gravemente, mas o automóvel foi arrastado vários metros pelo trem. Cerca de 800 metros à frente da passagem improvisada, existe uma cancela para passagem dos veículos e do lado oposto há uma rotatória, mas como os dois acessos têm que ser feitos por estrada de terra, muita gente prefere se arriscar pelo atalho.
''Já faz uns quatro anos que tem esta passagem. Havia uma promessa de asfaltar a rua e fazer a transposição da linha do trem, mas depois falaram que depende de verba federal, e aí é mais complicado'', afirma o morador Alexandre Morais Vieira. Ele conta que um motociclista também já foi atingido pelo trem, ao fazer a travessia clandestina. ''Certo não está, mas o pessoal precisa passar.''
O secretário municipal de Obras, Aloísio Crescentini de Freitas, informou que todo o trecho de terra da via paralela à linha será asfaltado em breve. ''Só falta o empenho da ordem de serviço. As obras devem começar ainda este mês'', anunciou. Quanto ao viaduto para transposição da ferrovia, o secretário informou que há projeto pronto, mas não há recurso.
A assessoria de imprensa da América Latina Logística (ALL), responsável pela malha ferroviária do Estado, informou que foi registrado um boletim de ocorrência e ontem mesmo estava sendo providenciado o fechamento da passagem clandestina. Segundo a assessoria, isto já havia sido feito anteriormente, mas a população voltou a abrir o acesso.
Ainda na Zona Norte há pelo menos outros dois outros exemplos de 'providências' tomadas pela população para facilitar a própria vida. Na Avenida Lúcia Helena Gonçalves Viana, os blocos de concreto colocados para impedir a passagem entre os canteiros centrais foram retirados há anos. ''Acho que está certo, aí não tem necessidade de barrar a passagem. Estou aqui há mais de um ano e nunca vi ter acidente por causa disso'', argumenta o comerciante Ademir Fabiano Ribeiro. Ele questiona a obra inicial. ''Por que fizeram essa abertura, para depois vir aqui e fechar?''
Já na Avenida das Maritacas uma passagem clandestina aberta no canteiro já foi até asfaltada. ''Dizem que foi o antigo dono do posto de gasolina que abriu esse atalho para facilitar a passagem dos clientes, já faz uns 15 anos. Sempre tem acidente com moto aí'', afirma Camilo Donizeti de Souza, que tem um bar nas proximidades.
O diretor de trânsito da Companhia Municipal de Trânsito e Urbanização (CMTU), Álvaro Grotti Junior, informa que este tipo de infração se tornou comum entre os comerciantes. ''Muitos, por exemplo, ignoram a sinalização horizontal feita pela CMTU, permitindo o estacionamento de carros no trecho da rua em frente suas lojas. Eles querem garantir espaço para estacionamento dos próprios clientes e chegam a brigar com os outros motoristas, mas esquecem que o poder público não pode beneficiar o individual em detrimento do coletivo.''

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