Motoristas cada vez mais estressados
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segunda-feira, 14 de maio de 2007
Mariana Guerin<br> Reportagem Local 
''Estresse não é doença'', no entanto, o motorista de ônibus Marcelo (nome fictício), 51 anos, já está afastado há quase um mês do trabalho ''por causa dos nervos''. Mal estar constante, dores de cabeça e no estômago, alergias pelo corpo são alguns dos sintomas que levaram o trabalhador a procurar ajuda. ''O próprio médico da empresa disse que era estresse e que eu precisava de tratamento'', conta.
A apenas um ano e meio da aposentadoria, Marcelo é funcionário de uma das empresas de transporte coletivo urbano de Londrina há 15 anos. Ele vive a mesma rotina, dirigindo pela Zona Norte da cidade, há oito anos e garante que ''o trânsito mexe com o nervo da gente''.
Desde que iniciou o tratamento, Marcelo tem que tomar diariamente uma medicação controlada e por isso não pode trabalhar. ''O remédio deixa a gente sonolento, além disso, para melhorar a depressão é preciso repouso'', diz. Segundo o motorista, apesar de estar afastado há um tempo, ele ainda não se sente pronto para voltar ao trânsito.
''Quando saio de carro ainda passo nervoso, por isso acho que ainda não estou legal para voltar a trabalhar.'' Antes da medicação, o motorista ''não dormia mais'', mas com o remédio, a insônia acabou.
Para Marcelo, as condições de trabalho são boas. Ele garante que nunca enfrentou problemas com passageiros, nunca foi assaltado ou discutiu durante o trabalho. ''Apesar de ter que fazer as vezes de cobrador nos fins de semana e feriados, está tranquilo.''
O motorista agora aguarda avaliação do médico para saber quando poderá retornar às ruas. ''Com o salário que ganho não tenho condições de sossegar ainda. Preciso trabalhar um pouco mais, mesmo depois de aposentado, para pagar umas contas, reformar a casa e trocar de carro.''
Como Marcelo, pelo menos 15% dos 25% de motoristas londrinenses associados ao Sindicato dos Trabalhadores em Transportes Rodoviários de Londrina (Sinttrol) estão afastados do trabalho em decorrência do estresse, depressão ou síndrome do pânico.
De acordo com o presidente do Sinttrol, João Batista da Silva, a revolução tecnológica já está atingindo a classe. ''Acúmulo de função e dificuldade no trânsito têm aumentado os problemas de saúde da categoria'', avalia.
Com a instalação de catracas eletrônicas, as frotas viajam sem cobradores diariamente, a partir das 19 horas, e nos fins de semana e feriados, o dia inteiro. Conforme Silva, o motorista, além de dirigir, tem que cobrar, cuidar das portas e ''lidar com passageiros rebeldes''.
''Para os transportes metropolitano e intermunicipal não há um mecanismo na lei que fiscalize o fato de os motoristas terem também que embarcar e desembarcar bagagem'', assinala o presidente do Sinttrol. Para ele, o cobrador ''era um companheiro do motorista. Auxiliava não só no embarque e desembarque de pessoas como também no fator segurança''.
''A ausência do cobrador cria uma tensão a mais para o motorista. Ele fica com o numerário em mãos, tendo de cuidar do dinheiro alheio, além de ter de fazer o caixa muitas vezes fora do horário de trabalho'', completa Silva.
Segundo ele, a jornada de trabalho dos motoristas é de seis horas, ''mas eles gastam de 10 a 12 horas para cumprir o horário porque a jornada é bipartida''. ''Antes dava tempo de voltar para casa, comer e descansar antes de retornar ao trabalho. Hoje, a maioria perambula pelo Centro e se alimenta mal até acabar o intervalo.''
Outra questão que tem aumentado o número de afastamentos, conforme o presidente do Sinttrol, é a mudança nas regras da Previdência. ''Antes, o empregado que ficava doente tinha o salário reduzido. Hoje, ao contrário, ele ganha um benefício a mais, do sindicato, e por isso, muitos preferem ficar em casa do que voltar ao trabalho.''
Para controlar a situação, há um ano o Sinttrol instituiu a regra que permite ao motorista receber o complemento de meio salário mínimo no pagamento mensal, mas somente pelo período de um ano. ''Isso porque muitos trabalhadores que pediam afastamento por problemas físicos, como coluna, passaram a dar entrada com problemas psicológicos, como síndrome do pânico'', aponta.


