O motoboy Francisco de Assis Pereira, preso anteontem em Itaqui, no Rio Grande do Sul, e acusado pela polícia de ser o maníaco do Parque do Estado, declarou ontem ao chegar a São Paulo ter dupla personalidade. ‘‘Tenho um lado bom e um lado ruim e o lado ruim muitas vezes é mais forte do que o
bom.’’
Esta revelação foi feita por Pereira ao delegado Sérgio Alves, responsável pelas investigações, ao chegar ao prédio do Palácio da Polícia, no bairro da Luz, antes de ser apresentado aos jornalistas.
O motoboy falou também ao delegado dos seus problemas durante o sono. ‘‘Tenho pesadelos, uma perversão grande dentro de mim, e acordo sempre bastante suado.’’ Durante o vôo de Porto Alegre a São Paulo, o policial conversou bastante com Pereira, falou das provas existentes contra ele e o aconselhou a confessar os crimes. ‘‘Quando falei que ele é um bom rapaz, que gosta de crianças e da família, Francisco quase chorou e achei que iria confessar seus crimes.’’
Numa tumultuada entrevista no prédio do Palácio da Polícia, Pereira negou ter assassinado as oito mulheres encontradas nas matas do parque. ‘‘A polícia vai ter de provar que fui eu.’’
O delegado Alves foi buscá-lo em Porto Alegre na companhia do diretor da Divisão de Homicídios, Jurandir Sant’Anna, e não tem dúvida que o motoboy é o assassino do parque. ‘‘Tenho certeza disso e no decorrer das apurações vamos provar e ele vai admitir as mortes.’’
Pereira será indiciado pelo assassinato de Selma Ferreira Queiroz, de 19 anos, que desapareceu em julho. Parte da cédula de identidade de Selma foi encontrada queimada no esgoto da empresa onde ele trabalhava. O acusado de ser o maníaco do parque defendeu-se. ‘‘Muitos motoboys viviam levando gente na empresa e não sei nada sobre o tal documento.’’
Durante a viagem para São Paulo num avião cedido pelo governo do Rio Grande do Sul à Secretaria da Segurança Pública de São Paulo, Pereira ficou o tempo todo algemado. Bebeu água, comeu sanduíche e ouviu com atenção o delegado Alves.
Alves relatou parte da investigação que vem desenvolvendo sobre o caso Selma. Falou ao motoboy sobre o exame de DNA que está sendo feito, da cédula de identidade queimada encontrada na empresa J.R. Express, do sapato da moça encontrados no parque, exatamente nas proximidades de onde ele morava. Pereira ouviu com atenção e o policial disse que se quisesse não precisaria responder, pois durante a noite seria interrogado e ele poderia dar todas as informações.
No inquérito sobre Selma, Pereira será acusado de estupro e assassinato. Pelo primeiro crime poderá ser condenado de 3 a 8 anos. Pela segunda acusação pode pegar de 12 a 30 anos.
O motoboy vai ficar isolado dos demais presos do Departamento de Homicídios. Ocupará uma cela no térreo do antigo plantão do extinto Deic. ‘‘Precisamos ter todo o cuidado, pois ele afirmou diversas vezes que pretende se matar’’, disse o delegado. Dois investigadorees vão se revezar na vigilância da cela.

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