Foz do Iguaçu - A legião de centenas de assaltantes, assassinos, estupradores e ladrões presos na Cadeia de Três Lagoas sempre foi motivo de repulsa pela população de Foz do Iguaçu. Eles compartilham o desprezo juntamente com um bando de inocentes enviados para o ''cadeião'' pela força policial.
Prova desse sentimento aflorou durante a elaboração do projeto para construção da penitenciária de segurança máxima na cidade. A maioria da dita sociedade civil organizada rejeitou a proposta sob a justificativa que o presídio poderia manchar a imagem do destino turístico. ''Imaginem uma fuga em massa'', divagava Pedro, enquanto dava comida aos pombos.
A articulação contra a idéia pouco adiantou. O presídio foi inaugurado em julho deste. Logo, as celas foram ocupadas por presos condenados. Dois meses depois estourou uma greve de fome por melhorias. A resposta do povo foi sarcástica. ''Onde já se viu. Milhares passando fome e as donzelas reivindicando sobremesa'', opinou o apresentador de um programa policial.
A notícia repercutiu nas ruas, avenidas e praças, repetindo o mesmo tom de zombaria. O jovem Tiago sugeriu entregar chocolates e pudim aos ''famigerados'', enquanto Josué propôs instalar um videocassete no pavilhão - já que os internos também reivindicam o direito de assistir mais de um canal de televisão.
O sarro variava conforme a sensibilidade dos comentaristas daquele episódio inusitado. Houve até quem anunciou que iria cometer um crime para ser preso e assim poder desfrutar das famosas regalias. À época, organizações não-governamentais anunciaram que as exigências seriam justas - ''o problema é que o governo distribui a renda de forma desigual''.
Como era esperado, a balbúrdia acabou e agora o povo respira ares natalinos. E para espanto da nação a cidade está diante de uma decoração de uma magnitude jamais vista na fronteira, produzida - ironicamete - ''por sujeitos desgarrados de valores''. O esplendor inédito dos enfeites é consensual entre velhos, adultos, jovens e crianças. ''Enfim, alguém deu uma dentro'', alfinetou Tomé.
Lá no presídio, João vê no noticiário o povo elogiar a população carcerária. Um cidadão disse na TV que o trabalho dignifica o homem. João foi um dos responsáveis pela transformação de milhares de garrafas plásticas, trapos e arames em adornos natalinos. Ao final do jornal, ele comentou sozinho. ''Alimentei a hipocrisia humana e desconfio ter ganho um motivo para celebrar na minha invejada ceia.''

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