Marcos Negrini

Mais um, mais umaRosa Carlos Andreoli, filha de Maria de Lourdes Rodrigues (foto de cima): ‘‘Queriam R$ 3 mil em dinheiro como depósito para poder internar minha mãe em UTI’’.

O número de pacientes mortos este ano por falta de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e de atendimento especializado em Maringá subiu de 14 para 16 nos últimos dez dias. Dois pacientes idosos foram enviados de ambulância do Hospital Universitário de Maringá para o Hospital Santa Catarina, de Cascavel, a 300 quilômetros de distância, onde morreram. A Folha apurou a informação ontem. As mortes ocorreram no domingo, dia 6 de julho, praticamente no mesmo horário (18h30).
Os pacientes João José Ferreira, 85 anos, e Maria de Lourdes Rodrigues, 82 anos, viajaram porque não havia vagas em UTIs na região de Maringá. No dia anterior, sábado, dia 5, quando foram internados no HU de Maringá, os plantonistas não conseguiram vagas em hospitais da cidade e região. Somente agora, o HU está pondo em funcionamento seus primeiros leitos de terapia intensiva (ver texto ao lado).
Ferreira morava no bairro Zona 6, em Maringá. Às 16 horas do sábado, dia 5, ele estava em casa quando começou a passar mal. Foi socorrido pela filha Anita Ferreira, 45 anos, que o levou ao pronto-atendimento do HU. ‘‘Lá fomos muito bem atendidas e os médicos disseram que ele estava com pneumonia e insuficiência respiratória e precisava com urgência de um leito de UTI. Como não havia vaga, o hospital nos mandou numa ambulância de convênio médico para o Hospital Santa Catarina, de Cascavel. Só havia vaga lᒒ.
Quando o pai de Anita deu entrada no HU estava lúcido e conversando normalmente. ‘‘Mas depois da buraqueira que são essas estradas do Paraná ele chegou lá meio morto, já não falava.’’
Maria de Lourdes, a outra vítima, também estava em casa às 12 horas do dia 5, no bairro Jardim Alvorada, quando teve um infarto. Sua filha Rosa Carlos Andreoli, 40 anos, a levou para o NIS-3, da Zona Norte.
‘‘Lá, imediatamente colocaram minha mãe numa ambulância e a levaram para o HU. Foi feito raio-X e constatada a necessidade de uma UTI, com urgência. Não tinha vaga. Eu e minha famílias fomos a todos os hospitais particulares que têm UTI na cidade. Em todos eles nos exigiram um depósito em dinheiro no valor de R$ 3 mil para poder internar minha mãe. Isto é um absurdo. Ela ainda poderia estar viva. Já estava velhinha, mas e os jovens de Maringá que morrem por falta de atendimento?’’, lamenta Rosa.
Numa ambulância cedida pela prefeitura, Maria de Lourdes viajou para Cascavel à 1h30 da madrugada de domingo. Ela esperou mais de 12 horas pela chegada da ambulância. Foi internada na UTI do Hospital Santa Catarina e morreu no domingo, por volta das 18h30. As famílias de Ferreira e Maria de Lourdes pagaram a mesma quantia (R$ 450,00) para trazer os corpos de volta para Maringá.
Segundo reportagem especial publicada no caderno Reportagem da Folha, justamente no domingo em que os dois idosos morreram, o transporte de pacientes graves para outras cidades-pólo do Estado, como Cascavel, Curitiba, Londrina e mesmo Francisco Beltrão, se transformou na única alternativa encontrada por moradores de Maringá que não dispõem de convênios particulares.

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