Mortes por Aids em Londrina comprovam o diagnóstico tardio
Em 2018 foram registrados 13 óbitos, sendo que 10 vítimas haviam descoberto a doença no mesmo ano
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quinta-feira, 16 de maio de 2019
Em 2018 foram registrados 13 óbitos, sendo que 10 vítimas haviam descoberto a doença no mesmo ano
Micaela Orikasa - Grupo Folha 

Jovens estão descobrindo o vírus HIV/Aids tarde demais. Isso significa que muitos pacientes estão morrendo no mesmo ano em que tiveram o diagnóstico da doença. Os números comprovam. Em Londrina, foram registradas 13 mortes em decorrência da Aids em 2018, sendo que 10 vítimas descobriram a sorologia no mesmo ano. Todas são do sexo masculino, na faixa etária acima de 15 anos. Os dados são do Serviço de Vigilância Epidemiológica da 17ª Regional de Saúde.
A regional abarca outros 20 municípios além de Londrina. Em toda a área de abrangência, o total é de 19 óbitos por Aids em 2018, sendo 15 com diagnóstico tardio. Sobre os registros de óbitos em 2019, são seis em toda a regional e dois no município, mas nenhum com diagnóstico recente.
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Em 2017, foram 18 mortes por diagnóstico tardio, sendo 11 homens e sete mulheres. Esse registro é do Sinam (Sistema Nacional de Atendimento Médico) divulgado pelo CTA (Centro de Testagem e Aconselhamento), do Centro de Referência Dr. Bruno Piancastelli Filho, que oferece atenção especializada em IST/HIV/Aids/Hepatites Virais e Tuberculose em Londrina.
Pela presença da Aids, essas vítimas tinham uma quantidade reduzida de células de defesa, o que promoveu um agravo da saúde por outras doenças, especialmente a tuberculose e a pneumonia. “Como o paciente está com o sistema imunológico alterado, qualquer doença pode levá-lo a óbito porque ele não consegue combatê-la”, explica Lázara Regina de Rezende, que atua como dentista no CTA e compartilhou as informações com a FOLHA.
De acordo com ela, a principal forma de transmissão do HIV/Aids tem sido a relação sexual sem preservativo e o grupo mais atingido é o formado por homens jovens com nível de escolaridade de segundo grau a superior incompleto “Aí é que está o grande questionamento: por que essas pessoas não fazem a prevenção com o uso do preservativo e por que que uma pessoa que passou por uma situação de risco não procura fazer o teste?”
NEGAÇÃO
Em resposta à própria pergunta, Rezende que atende pacientes soropositivos há 18 anos, aponta como razão principal a negação da doença pelo próprio indivíduo. A mesma observação é feita pela Alia (Associação Londrinense Interdisciplinar de Aids), que atua há 30 anos no enfrentamento da epidemia de Aids. “Os estigmas levam à negação da doença e isso faz com que o indivíduo não vá em busca de informações, de serviços de saúde, de saber se realmente tem o vírus”, comenta o educador social da entidade, Paulo Faccio.
O psiquiatra em Londrina, Diego Augusto Nesi Cavicchioli, comenta que a negação é uma reação instintiva do ser humano. “Ocorre em qualquer fase da vida diante de uma notícia ruim e nesses casos, a pessoa pode estar com medo do diagnóstico. É por isso que a informação é fundamental, pois os tratamentos avançaram muito, mas não sabemos até que ponto isso está claro para a população”, ressalta.
TESTE RÁPIDO
Em Londrina, além do CTA, a maior parte das Unidades Básicas de Saúde realiza o teste rápido e o tempo para ter o resultado em mãos é de 20 minutos. Se a sorologia for reagente (positivo), um tratamento medicamentoso e multidisciplinar será prescrito para que a pessoa possa viver bem com a patologia.
De acordo com o CTA, já são 68 prontuários da doença abertos no município em 2019, considerando também as notificações das UBSs, hospitais e consultórios particulares.
A Alia afirma que há mais de quatro mil PVHIV (Pessoa Vivendo com HIV) em Londrina. A OMS (Organização Mundial de Saúde) considera que para cada caso confirmado de HIV/Aids, cinco pessoas também estejam infectadas, mas desconhecem sua condição sorológica.
BANALIZAÇÃO
Outra questão associada ao diagnóstico tardio é a banalização da doença. Segundo Rezende, as campanhas de divulgação na época de 80 tinham efeito porque faziam as pessoas pensarem sobre. “Hoje, são momentos pontuais, como o dia 01 de dezembro”, comenta ao fazer referência ao Dia Mundial de Luta contra a Aids.
Para Lima, “a geração mais nova não se percebe vulnerável e não tem tido educação formal para lidar com sua sexualidade e com sua questão sexual. Isto é o que a gente chama de banalização. A sociedade hoje não sabe o que é o vírus HIV”, diz.
Sobre a percepção de “imunidade” comumente relacionada aos jovens, Cavicchioli diz que isso depende da personalidade de cada um. “De maneira geral, na adolescência pode haver um comportamento mais impulsivo, isto é, tomar uma atitude sem pensar na consequência e até muitas vezes, pela vontade de experimentar sensações novas, de adrenalina, mas isso explica mais o comportamento de risco no qual se submetem”, detalha.
Para o UNAIDS (Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids) no Brasil, as principais barreiras à realização do teste de HIV incluem “falta de conscientização individual sobre o risco, estigma, percepção de que o diagnóstico traz poucos benefícios, obstáculos legais e estruturais e de custos associados aos serviços, como deslocamento até centros de saúde”.
PREVENÇÃO COMBINADA
A defesa da Alia (Associação Londrinense Interdisciplinar de Aids) tem sido na promoção à saúde através da chamada “prevenção combinada”. “Não dá mais para só distribuir camisinhas e alertar que a Aids mata. precisamos desenvolver um leque de opções para o sujeito se encaixar conforme as práticas de risco que ele tem. É ensiná-lo gerenciar os riscos que ele corre”, acrescenta o educador social da Alia, Paulo Faccio.
Para isso acontecer na prática, a entidade destaca a efetividade de políticas públicas de enfrentamento da doença. Em 2018, a Alia apresentou aos gestores municipais um Termo de Fomento para a execução de projetos de formação, promoção, diagnóstico e prevenção para populações-chave.
A proposta tem como base a Lei 13.019 de julho de 2014, que regulamenta a parceria entre entidades privadas, sem fins lucrativos e o poder público. “Por que pessoas com menos de um ano de diagnóstico para HIV vieram a óbito? Porque nenhuma dessas tecnologias, desses serviços públicos, alcançou essa pessoa. E nós vamos continuar perdendo muitas vidas jovens se continuarmos com esse descaso sanitário”, pontua o presidente da Alia, Ronildo Lima.
Dados do Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde revelam que a taxa de detecção de casos de Aids entre jovens do sexo masculino, entre 15 e 24 anos, mais que dobraram na última década, passando de três para sete casos por 100 mil habitantes (15 a 19 anos), e de 15,6 para 36,2 casos por 100 mil habitantes (20 a 24 anos).
O secretário municipal de Saúde, Felippe Machado diz que sempre houve uma fragilidade em relação às políticas voltadas às ISTs/HIV/Aids e que os setores que trabalham com a temática sempre trabalharam de forma segregada.
“No ano passado, decidimos reunir todos os atores envolvidos e por meio da Comunaids (Comissão Municipal de Prevenção e Controle de DST/Aids), desenvolvemos um Plano Municipal de Enfrentamento das IST/HIV/Aids que inclui ações no CTA (Centro de Testagem e Aconselhamento), atenção básica e capacitação de pessoal”, comenta.
Sobre o Termo de Fomento, Machado responde que as atividades propostas pela Alia estão em análise e deverão ser encaminhadas para a Procuradoria Jurídica do município. “A proposta é para uma parceria remunerada, com transferência de recursos. Isso é algo que a prefeitura nunca teve e por isso todos os cuidados estão sendo tomados para que não ocorra nenhum desagravo no futuro. Espero que isso já esteja funcionando até dezembro”, pontua.
Serviço: Dúvidas, testes, acesso a medicamentos e aconselhamento são serviços ofertados no CTA, de segunda a sexta, das 7h às 13h e no ambulatório de HIV/Aids/IST, das 7h às 17h, localizados na alameda Manoel Ribas, esquina com a rua Souza Naves). Mais informações pelo fones (43) 3378-0146 ou 3379-0176 . Aos finais de semana e em outros horários, a recomendação é buscar outros serviços em saúde.



