Sid Sauer
De Campo Mourão
Para eles, o Dia de Finados não tem nada de especial. A morte faz parte da rotina diária e, principalmente, garante o sustento de suas famílias.
Algumas pessoas exercem funções que só existem graças à morte, como coveiros, agentes funerários e administradores de cemitérios, além de pedreiros e zeladoras que vivem da construção e limpeza de túmulos. Nenhum deles, porém, parece ter uma função tão ‘‘macabra’’ como o auxiliar de necropsia Milton Scheibel, 46 anos, que há 15 anos trabalha no Instituto Médico Legal (IML) de Campo Mourão. ‘‘Não me choco mais com nenhum tipo de morte’’, conta. ‘‘Só acho desagradável mexer com o corpo de um amigo’’.
O vínculo de Scheibel com o IML começou em 1971, quando ele estava servindo o Exército e se tornou enfermeiro de campo. ‘‘Nunca havia pensado em trabalhar na área de saúde antes’’, lembra. Do exército, ele só saiu, após seis anos, para trabalhar num hospital de Campo Mourão. Quando viu, já estava no IML. E ficou. Nesses 15 anos, Scheibel nunca conseguiu tirar férias. ‘‘Não aparece ninguém para me substituir’’, conta.
Como auxiliar de necropsia, Scheibel está 24 horas por dia, sete dias por semana, à disposição do IML. Não tem final de semana, não tem feriado e muito menos as madrugadas para dormir sossegado. ‘‘Quem morre assassinado ou por acidente tem que passar pelo IML, não interessa a hora’’, ressalta Scheibel, que dá expediente sozinho no órgão. Mesmo com a vida dura, o auxiliar de necropsia garante que faria tudo de novo. ‘‘Gosto do meu serviço’’, diz.
Apesar de gostar do que faz, Scheibel admite não ser nada agradável realizar, por exemplo, uma exumação. ‘‘Se for um corpo de alguém que morreu há alguns dias, é terrível’’, diz. ‘‘O cheiro é tão forte que fica na gente por umas 48 horas’’. Para piorar, muitas vezes os exames têm que ser feitos dentro da própria cova, sob um sol escaldante. ‘‘Na última vez, ficamos seis horas, sem poder nem tomar um copo de água, para encontrar um projétil num corpo’’, lembra
Mesmo em caso de tragédias, Scheibel mantém a disposição. Nem que passem pelas suas mãos 22 corpos de uma vez, como num acidente ocorrido em 1991. ‘‘Foram dois dias de serviço’’, recorda. O auxiliar de necropsia já aprendeu, no entanto, que é melhor não comentar nada em casa sobre o serviço do dia. ‘‘No começo, tinha vontade de passar para alguém tudo aquilo que via, mas percebi que minha família não tinha interesse em saber’’, conta. O homem que vive da morte trágica confessa que não vai a velórios. ‘‘O clima de velório não me faz bem’’, explica.
Quem reclama do trabalho ininterrupto que a morte provoca é o agente funerário José Sobral da Silva, 55 anos. ‘‘Pelo menos metade das mortes acontecem de madrugada’’, conta. Apesar do trabalho a toda hora, Sobral já está há 22 anos no ramo e não pensa em sair. Pelo contrário: ele já fez até herdeiros. O filho dele, Eduardo, 20 anos, foi criado dentro de funerárias e hoje é seu ‘‘braço direito’’ na realização dos serviços.
De acordo com Sobral, uma das missões mais difíceis das funerárias é o translado dos corpos para cidades distantes. ‘‘Quando temos que ir buscar um corpo, é preciso ir rápido e voltar mais ainda’’, explica. Foi num desses translados que Sobral perdeu um irmão, de 20 anos, que também trabalhava no ramo. ‘‘Ele havia levado o corpo de uma criança de Curitiba para Santa Catarina e sofreu um acidente na volta’’, conta.
Como comerciante, Sobral também se queixa da crise, apesar de ter em suas mãos o monopólio do serviço funerário em Campo Mourão. ‘‘Só estamos conseguindo vender os caixões mais baratos’’, diz ele. As urnas funerárias mais vendidas estão na faixa de R$ 300,00, mas Sobral tem no estoque caixões de até R$ 8 mil. ‘‘É um capital que está parado’’, ressalta. Ele reclama ainda que o ramo já não vive seus melhores momentos.
‘‘Funerária em Campo Mourão dava dinheiro há 15 anos, quando não havia outras na região’’, afirma Sobral. ‘‘Hoje qualquer cidadezinha tem uma ou duas funerárias’’. O agente chega a dizer que se as duas empresas do município não tivessem se unido numa administração só, uma delas já teria quebrado. Sobre o serviço, ele admite o ‘‘lado chato’’. ‘‘Aqui só chega gente chorando. Ninguém entra sorrindo numa funerária’’.

JOAQUIM SABINO
Folha –Há quanto tempo o senhor trabalha no cemitério?
Sabino –Já faz 27 anos.
Folha –Nunca faltou serviço?
Sabino –Nunca.
Folha –É difícil construir túmulos?
Sabino –Difícil, não, mas existe uma técnica própria.
Folha –Como assim?
Sabino –Ah, já vi muito pedreiro bom quebrar a cabeça aqui.
Folha –O senhor já desmanchou um túmulo por que não recebeu por ele?
Sabino –Já. Não desmanchei pelo dinheiro, mas pelo desaforo.

SÔNIA SILVESTRIN
Fotos Simone GirotoFolha – É verdade que a senhora quis voltar para o cemitério?
Sônia – Sim. Me sinto bem aqui.
Folha – A senhora não se sente triste?
Sônia –Não, mas aqui a gente vê a realidade da vida. Não se ilude.
Folha –Há violações de túmulos?
Sônia –Não. Mas algumas pessoas pisam nos túmulos e ele quebram.
Folha –Qual é a principal reclamação dos visitantes?
Sônia –É sobre o roubo de flores dos túmulos.

MILTON SCHEIBEL
Folha –O senhor comenta com a família sobre o seu trabalho diário?
Scheibel –Antes eu comentava. Hoje, não.
Folha –Por quê ?
Scheibel –Percebi que ela não tinha interesse em saber.
Folha –O que é pior no seu serviço?
Scheibel –Fazer exumação. Se a morte for recente, é terrível.
Folha –O senhor nunca perdeu o apetite por causa do serviço?
Scheibel –Já cheguei a ficar uma semana comendo só alface.

NAIR DA ROCHA
Folha –Como a senhora começou a trabalhar no cemitério?
Nair –Meu marido virou coveiro e me aconselhou.
Folha –O que a senhora fazia antes?
Nair –Era doméstica.
Folha –A senhora não prefere voltar a ser doméstica?
Nair –Não. Aqui é mais tranquilo.
Folha –A senhora recebe direitinho?
Nair –Nem sempre. Algumas pessoas esquecem de me pagar.
Folha –O que a senhora faz com quem não paga?
Nair –Quando vejo que a pessoa não vai pagar mesmo, paro com a limpeza.

JOSÉ LÁZARO DA SILVA
Folha –O senhor gosta de trabalhar no cemitério?
Lázaro –Gosto muito.
Folha –Por quê?
Lázaro –Aqui é tranquilo. Ninguém incomoda.
Folha –Mas o senhor não gostaria de ser transferido?
Lázaro –Não. Só saio daqui se me tirarem.
Folha –O senhor já teve que enterrar algum parente?
Lázaro –Já enterrei até um irmão.

JOSÉ SOBRAL
Folha –Funerária ganha muito dinheiro?
Sobral –Em Campo Mourão, não.
Folha –Por quê?
Sobral –Só vendemos os caixões mais baratos.
Folha –As pessoas pechincham nas funerárias?
Sobral –Pechincam. E dão calote também.
Folha –Qual é o tipo de calote mais comum?
Sobral –A pessoa compra o caixão e diz que precisa se reunir com a família para fazer o pagamento. Fica de voltar no dia seguinte e não volta mais.
Folha –O que o senhor faz num caso desses?
Sobral –Tentamos negociar. Se não der, vamos à Justiça.

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