Morte de sem-terra fica sem solução
PUBLICAÇÃO
domingo, 13 de setembro de 1998
Sid Sauer 
Um ano depois, o assassinato do sem-terra José Arnaldo dos Santos, na época com 26 anos, morto com um tiro na cabeça durante ocupação da Fazenda Rio Tonete, em Nova Cantu (130 km ao sul de Campo Mourão) continua sem solução. O inquérito policial foi encaminhado para o Fórum de Campina da Lagoa, mas não conseguiu apurar o autor do tiro que atingiu o sem-terra. O inquérito continua aberto e pode voltar para a delegacia a qualquer momento, disse o delegado de Nova Cantu, Osvaldo Moreira.
Segundo ele, foram feitas várias investigações, mas não foi possível apontar o criminoso. Havia muita gente e no meio daquela baderna ninguém sabe quem atirou, afirmou. Santos levou o tiro no dia 16 de agosto e morreu quatro dias depois num hospital de Campo Mourão. De acordo com depoimentos dados na época pelos próprios sem-terra, os tiros foram dados a uma distância de cerca de 100 metros por um grupo de aproximadamente 15 homens. Apenas um disparo atingiu a cabeça de Santos. A bala só pôde ser retirada depois que ele morreu.
Santos foi atingido quando trabalhava com cerca de outros 200 homens no preparo da terra para o plantio de milho. O grupo estava a 1,5 quilômetro da sede da fazenda, onde também ficava o acampamento, que na época contava com mais de mil famílias. Os funcionários da fazenda, no entanto, contaram uma versão diferente para a polícia. Segundo eles, o tiroteio foi provocado por uma discussão entre os próprios sem-terra. Em dezembro, um grupo de sem-terra chegou a invadir a prefeitura de Nova Cantu para pedir a agilização do inquérito.
Tranquilo A fazenda onde ocorreu o tiroreio não está mais invadida. Ela tem cerca de 200 alqueires, mas é rodeada por propriedades do Grupo Slaviero, que estavam na mira dos sem-terra. Durante o enterro de Santos, membros do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) chegaram a anunciar que a morte dele seria vingada com novas invasões. Não foi isso, no entanto, que aconteceu. Pouco tempo depois a fazenda foi desocupada. O mesmo aconteceu com pelo menos outras cinco propriedades de Nova Cantu que estavam invadidas por sem-terra.
Segundo o delegado Osvaldo Moreira, atualmente apenas a Fazenda São Jorge, com cerca de 600 alqueires, continua ocupada pelos sem-terra. Só restam umas 13 ou 14 famílias e elas já estão para sair de lá, conta Moreira. O pessoal está saindo de lá aos poucos e por iniciativa deles mesmos. O delegado diz que tem informações de que a fazenda deve ser totalmente desocupada ainda esta semana.


