Ocorrido por volta das 22h do dia 15 de fevereiro, um suposto confronto entre quatro agentes da PM (Polícia Militar) e dois jovens desencadeou um dos maiores e mais duradouros atos de manifestação popular da história recente de Londrina. Wender da Costa, 20, e Kelvin dos Santos, 16, trafegavam pelo jardim Santiago (zona oeste) em um veículo - pertencente a um cliente do lava-rápido que trabalhavam - quando foram alvejados com 18 tiros, resultando na morte imediata dos dois.

Desde então, amigos, vizinhos e familiares dos jovens não descansam em busca daquilo que chamam de justiça. Já a PM segue mantendo a versão inicial, a de que Wender e Kelvin estavam armados e os tiros foram motivados por legítima defesa. A reportagem apurou que, durante esse intervalo de um mês, foram realizados pelo menos 24 atos de protesto. A maior parte deles aconteceu de maneira concentrada no dia 17 de fevereiro, uma segunda-feira que ficou marcada por incêndios a veículos e manifestações em todas as regiões da cidade. A reportagem preparou uma linha do tempo com os acontecimentos.

Resposta ao suposto confronto - 15 e 16 de fevereiro

Moradores Nossa Senhora da Paz, popularmente conhecido como Bratac, responderam imediatamente à abordagem policial. Amigos e familiares passaram a questionar a atitude dos agentes no local, o que provocou uma confusão com tiros de balas de borracha e bombas de efeito moral. Sirlene Vieira, mãe de Kelvin, ao tentar se aproximar do corpo do filho, foi atingida por um dos disparos na perna.

Segundo Emerson Castro, capitão do 5º BPM (Batalhão da Polícia Militar), depois da exaltação dos ânimos na madrugada de sábado (15) para domingo (16), um ônibus da Viação Catarinense, que seguia de Maringá (Noroeste) para São Paulo, foi atingido por pedras enquanto estava parado no semáforo próximo à Bratac. Vidros do veículo foram quebrados e os estilhaços atingiram dois ocupantes: o motorista e uma passageira, que tiveram escoriações. As famílias dos jovens não assumiram os atos de vandalismo.

Boletim da PM, protestos e incêndios - 17 de fevereiro

O boletim oficial da PM sobre o suposto confronto foi disponibilizado à imprensa ainda no domingo (16), mas capitão Castro, após repercussão, deu mais detalhes sobre o caso na segunda-feira (17). Segundo o documento, Wender e Kelvin estariam em um veículo com características semelhantes ao de um automóvel suspeito de envolvimento em furtos a residências. Castro, na oportunidade, ressaltou que os jovens eram suspeitos de terem cometido um arrombamento com violência no bairro Parigot de Souza (zona norte). A advogada da família contesta e afirma que o veículo não era o mesmo citado pela PM e não tinha qualquer ligação com o crime.

Após o velório e enterro de Kelvin e Wender, os familiares organizaram cinco protestos nas zonas leste, oeste, norte e sul de Londrina. A reportagem esteve no ato realizado na avenida Brasília , no dia 17, com a participação de cerca de 200 pessoas. A via foi parcialmente interditada por algumas horas e a polícia se manteve a cerca de 100 metros dos manifestantes. Não houve confrontos.

Entretanto, o que deveriam ser atos pacíficos, tornaram-se movimentos de violência e caos espalhados por todo o município. O Corpo de Bombeiros registrou 17 chamadas de incêndio vindas de pontos de protesto na cidade. Pelo menos dois ônibus foram incendiados, fazendo com que empresas de transporte coletivo suspendessem a circulação dos veículos das 20h de segunda às 6h de terça-feira (18).

Policiamento reforçado e mães no MP - 18 de fevereiro

No dia seguinte à noite de caos, uma Operação Integrada foi lançada pela Secretaria de Segurança Pública do Paraná para conter a desordem na cidade. A reportagem apurou que mais de 100 policiais se deslocaram de outros municípios a Londrina.

No mesmo dia, mães dos jovens e dezenas de apoiadores estiveram na sede do Ministério Público e pedir imparcialidade nas investigações, causas que foram correspondidas pelo órgão.

Por se tratar de uma ocorrência envolvendo militares em serviço, a PM passou a investigar o caso, mas, para garantir isenção e imparcialidade, ficou decidido que o IPM (Inquérito Policial Militar) seria conduzido por uma equipe de Maringá (Noroeste). Já a Polícia Civil assumiu dois inquéritos: um para investigar o suposto confronto e as mortes e outro para analisar o excesso das manifestações.

O governador do Paraná, Ratinho Junior, em visita a Londrina cinco dias após o suposto confronto, prometeu que as investigações sobre a morte dos dois jovens seriam apuradas de maneira isenta. Ele também prestou solidariedade às famílias, mas enfatizou que o policial do estado é treinado para reagir se for atacado.

Imagem ilustrativa da imagem Morte de jovens pela PM em Londrina completa um mês
| Foto: Roberto Custodio

Prisão de suspeitos e novo protesto - 21 de fevereiro

A PM, em ação conjunta com a Polícia Civil e a Guarda Municipal, prendeu na sexta-feira (21) cinco suspeitos da participação do atentado ao ônibus na madrugada de domingo (16). Os homens foram reconhecidos por meio das câmeras de segurança do veículo. De acordo com a Polícia Civil, eles já tinham mandado de prisão preventiva em aberto pelos crimes de organização criminosa, roubo agravado e dano agravado.

No fim da tarde, o deputado estadual Renato Freitas (PT) esteve em Londrina para ouvir os relatos de Vanessa da Costa e Sirlene Vieira, mães dos jovens mortos. Eles se juntaram em um novo protesto que fechou mais uma vez a avenida Brasília.

Manifestação no jardim Santiago - 22 de fevereiro

No dia seguinte, um sábado, os moradores locais se reuniram novamente para pedir justiça. Desta vez, eles se direcionaram ao jardim Santiago. Apoiadores da causa soltaram dezenas de balões brancos, simbolizando, de acordo com eles, um anseio por paz nas comunidades.

Atos no Calçadão - 1º e 8 de março

Uma semana depois, um novo ato foi feito no Calçadão de Londrina. Estiveram presentes moradores da Bratac e familiares de diversos jovens mortos em ações policiais, todos integrantes do grupo Mães de Luto em Luta, que reúne casos parecidos para cobrar justiça. No sábado seguinte, os manifestantes marcaram presença no Calçadão mais uma vez com cartazes e palavras de ordem contra a PM.

Policiais seguem trabalhando e família protesta - 10 de março

Na última segunda-feira (10), outro grande movimento interrompeu o trânsito de veículos na avenida Brasília. As mães de Kelvin e Wender protestaram pelo fato de os policiais Julio César da Silva, Luiz Ricardo Monteiro da Silva, Jeferson Fontes Longas e Gabriel Ferreira de Lima Bosso - envolvidos no suposto confronto - continuarem trabalhando. A informação foi confirmada pelo advogado dos agentes, Eduardo Miléo.

A Polícia Militar, procurada pela reportagem, explicou como funciona o processo de afastamento de policiais envolvidos em confronto:

"Quando há uma intervenção policial com resultado morte, a PMPR imediatamente afasta os policiais que atuaram na ocorrência até que passem por uma avaliação psicológica. Após isto, caso estejam aptos ao trabalho, eles retornam às suas atividades. No caso em tela, não existe, até o momento, algo que desabone a conduta dos policiais militares. Desta forma, em respeito ao princípio da presunção da inocência, eles regressaram às suas atividades após o período de afastamento protocolar citado acima."

O IPM que apura o caso segue em andamento e tem o prazo de 40 dias para conclusão. Como foi aberto no dia 18 de fevereiro, deve ser concluído até a última semana de março. Miléo, que defende os policiais, declarou que vai aguardar as investigações para poder se manifestar.

O secretário de Segurança Pública do estado, Hudson Teixeira, garantiu, em coletiva de imprensa nesta sexta-feira (14), que a pasta está acompanhando de perto o caso e ressaltou que essa é uma investigação que vem ocorrendo de maneira “imparcial” e “sem juízo de valor”.

Teixeira também deixou claro que toda a situação em relação aos protestos vem sendo acompanhada pelo setor de inteligência da Polícia Civil e que a população tem o direito de se manifestar e a lutar pelo que elas acham justo, desde que de maneira ordeira e pacífica.

Em relação às câmeras corporais, disse que já há um prazo estipulado para a conclusão do estudo do projeto piloto, mas não deu mais detalhes. Além disso, o objetivo é ir além, segundo ele, e instalar câmeras também nas viaturas para que elas possam identificar veículos roubados e fazer o reconhecimento facial de suspeitos. “Tudo isso está sendo visto com muito respeito uma vez que é muito caro e é um recurso público, que é do povo, então a gente vai aplicar da melhor forma possível”, destacou.

Nas redes sociais, Vanessa e Sirlene denunciaram "a truculência e perseguição" que policiais estão promovendo nas regiões onde as duas vivem. A advogada das famílias, Iassodara Ribeiro, ressaltou à reportagem que esteve no Ministério Público nesta quinta-feira (13) para oficializar essa demanda apresentada pelas mães ao Gaeco.

Vanessa da Costa, mãe de Wender, disse que o tempo a deixou mais forte para buscar uma resposta para as mortes. "Faz um mês que eles faleceram, mas não queremos tristeza, porque eles eram alegres. Não queremos tristeza porque sabemos que a justiça vai vir", afirmou ela, na tarde de sábado, quando a comunidade do Nossa Senhora da Paz organizou um evento para arrecadar recursos para pagar uma perícia particular.

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