A morte de um cigarreiro, em circunstâncias ainda não explicadas, está provocando troca de acusações entre os comandos das polícia Civil e Federal em Foz do Iguaçu.
Genessi da Silva, de 19 anos, foi morto há uma semana, em uma operação de repressão ao contrabando feita pela Polícia Federal (PF) na margem paranaense do Rio Paraná, que divide Brasil e Paraguai. Segundo os agentes da PF, 16 homens retiravam cigarro contrabandeado do Paraguai de um barco e carregavam a mercadoria em três Kombis.
Os cigarreiros (contrabandistas especializados em cigarros) teriam reagido à abordagem a tiros. Seis cigarreiros foram presos. Nove fugiram. Silva morreu, atingido na nuca durante esse suposto tiroteio. Testemunhas afirmaram que os cigarreiros não estavam armados e que Silva foi baleado pelas costas. Informações da Polícia Civil (PC), publicadas em jornais de Foz do Iguaçu no dia seguinte à morte, reforçaram essa versão.
Segundo essas informações, não havia ‘‘indícios’’ de troteiro no local onde o rapaz foi morto. Além disso, a PF estaria demorando para enviar à PC - que abriu inquérito para investigar a morte - as armas usadas por seus agentes na operação. Apesar da alegação de tiroteio, a PF não apreendeu nenhuma arma com o grupo de cigarreiros.
Ao saber dessas insinuações, o delegado da PF em Foz, Airton Vicente, reagiu, atacando a Polícia Civil. Acusou policiais do 2º Distrito - divisão responsável pela área da Ponte da Amizade - de acobertar o contrabando praticado pelos cigarreiros, em troca de propina. Além disso, acusou os mesmos policiais também de extorsão e usurpação de função.
Em março, eles teriam, segundo Vicente, exigido R$ 11,5 mil de um grupo de guias de turismo acusado de evasão de divisas para livrá-los do flagrante. Além de extorsão, essa prática pode caracterizar usurpação de função. Coibir a evasão de divisas (remessa ilegal de dinheiro ao exterior) é de competência da PF.
Vicente disse que suas acusações são baseadas em informações do serviço de investigações da PF, que, desde novembro passado, teria recebido uma série de denúncias de supostas vítimas. Essas denúncias teriam virado inquérito, que não progrediram por falta de denúncia formal. Vicente não forneceu o nome e nem o número de policiais que estariam envolvidos.
O delegado-chefe da 6ª Subdivisão Policial de Foz do Iguaçu, Luis Carlos de Olveira disse que as acusações de Vicente são ‘‘infelizes e levianas’’. ‘‘Se ele sabia disso, por que não denunciou à Corregedoria da Polícia Civil?’, questionou. Oliveira afirmou que nunca tomou conhecimento dos supostos crimes de policiais civis. Em relação à denúncia de extorsão, disse que realmente se tratava de um caso de evasão de divisas.
O delegado do 2º DP, Andrei Carneiro, que comanda o inquérito sobre a morte do cigarreiro, pediu à PF uma lista com os nomes dos policiais que participavam da operação e requisitou as armas que eles usavam, para perícia. Segundo ele, as oito testemunhas já ouvidas garantem que ‘‘nove homens sem identificação chegaram disparando metralhadoras e pistolas 9 milímetros’’ contra os cigarreiros. A necrópsia do Instituto Médico Legal (IML) não havia sido concluída até ontem. A Folha não conseguiu entrevistar ontem o delegado da Polícia Federal.

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