Maigue Gueths
De Curitiba
O Paraná fechou o ano de 98 com números que colocam a mortalidade materna como a oitava causa de morte entre as mulheres em idade fértil (entre 10 e 49 anos). Relatório do Comitê de Mortalidade Materna no Paraná mostra que o Coeficiente Médio de Mortalidade Materna (CMM) aumentou em relação a 97 e 96, passando de 74,4 óbitos de parturientes por 100 mil bebês nascidos vivos em 97 para 81 mortes por 100 mil nascidos vivos em 98. O Comitê ainda está fechando os números de 99, mas dados preliminares já apontam para um novo aumento no ano passado.
‘‘O mais grave de toda esta situação é que praticamente a totalidade desses óbitos poderia ser evitada’’, alerta a diretora do Sindicato dos Trabalhadores na Saúde Pública Estadual (SindSaúde), Mari Elaine Rodela, lembrando que o próprio relatório aponta que poderia ser evitada a morte de 1.330 (85,9%) mulheres. Em 103 casos (6,7%) a morte era inevitável e em 115 (7,4%) as investigações foram consideradas inconclusivas. A causa das mortes é outro fator que deve ser levado em conta.
Pesquisa mostra que 43,6% das mortes ocorrem por falta de assistência médica, 19,3% por falta de assistência hospitalar, 13% por falta de condição sócio-econômica e educacional e apenas 16,3% por culpa da paciente, seja por não ter feito o pré-natal, seja por usar drogas, álcool ou tabaco durante a gravidez. ‘‘Isto mostra que a maioria das mulheres está fazendo a sua parte, que é o pré-natal e procurar serviço médico, mas quando chega na hora de ser atendida o serviço falha’’, denuncia outra diretora do SindSaúde, Maria das Dores Tucunduva Santos.
A mortalidade materna no Paraná surpreende ainda mais se levarmos em conta que o Estado – quase sempre – ocupa lugares mais à frente da maioria dos outros estados do País. Não é este o caso. O índice no Paraná chega a ser oito vezes maior do que o preconizado pela Organização Mundial de Saúde (OMS), que estabelece como ideal dez mortes por 100 mil nascidos vivos e toma como aceitável um coeficiente de até 20 mortes. Em relação ao restante do Brasil, o Paraná também fica na média. O CMM oficial para o Brasil em 96 foi de 45, fator este que tem que ser atualizado em função do grande sub-registro dos óbitos no restante do País. Chega-se, assim, a um coeficiente estimado de 90 mortes por 100 mil nascidos vivos no Brasil, número pouco acima do registrado no Paraná.
Para a presidente do Comitê e da Associação Brasileira de Enfermagem, Alaerte Leandro Martins, além de investigar as causas das mortes, o maior objetivo dos comitês é propor soluções. ‘‘O que mais mata a mulher na maternidade no mundo, no Brasil e no Paraná é a falta de um pré-natal adequado que acompanhe e trate da mulher com pressão alta’’, diz. Pelo relatório, 349 mulheres (22,4%) morreram por complicações devido a hipertensão, 215 (13,7%) por hemorragia, 136 (8,7%) por infecção. Outras 344 mulheres (22,1%) tiveram óbito obstetrício indireto, ou seja, morte por agravamento, com a gravidez, de doença já existente. ‘‘No primeiro caso a culpa é do atendimento nos postos de saúde que não diagnosticaram e medicaram a mulher com pressão alta, no segundo caso o erro é do hospital por não saber manipular ou não ter banco de sangue e, no terceiro, as infecções acontecem principalmente em pacientes que fizeram cesariana’’, diz.
Esse, aliás, é outro grande problema para os comitês, que cobram maior conscientização das mulheres sobre os riscos da cesariana. Entre as mortes, 63% fizeram cesariana contra 35,2% de parto normal. Um número excessivamente alto se considerarmos que o risco da cesariana é duas vezes maior, independente da causa do óbito.Comitê aponta que em 98 foram 81 mortes para 100 mil nascidos vivos. Número de casos é oito vezes maior que o recomendado pela OMS
Leandro TaquesDESCASO Alaerte Martins, presidente do Comitê, diz que maior causa de mortes é a falta de pré-natal e acompanhamento adequado

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