Mortalidade materna assusta Maringá
Lucinéia Parra
De Maringá
Maringá teve a maior média de mortalidade materna em 1998 no Paraná. A cada cem mil nascidos vivos, morreram em consequência de complicações no parto 113,33 mulheres. A média de Maringá é 11 vezes maior do que preconiza a Organização Mundial de Saúde (OMS) e cerca de 30% maior que a média no Paraná, que registrou, no mesmo período, o coeficiente de mortalidade materna de 81 para cada cem mil nascidos vivos.
Em documento redigido com base nos levantamentos apresentados durante o Seminário dos Dez Anos dos Comitês de Mortalidade Materna do Paraná, realizado em agosto, em Curitiba, a situação da assistência obstétrica em Maringá foi considerada vergonhosa. O texto, assinado pelo ex-presidente do Comitê Estadual de Mortalidade Materna, Hélvio Bertolozzi Soares, destaca que é preciso ações urgentes e concretas para garantir uma assistência digna às mulheres maringaenses.
Segundo Hélvio Bertolozzi Soares, a dificuldade de acesso da população de Maringá aos leitos obstétricos credenciados pelo SUS que deles dependem e teriam por direito constitucional e humano, é vergonhoso e desumano.
Conforme dados apresentados no seminário, em 1998 somente 36% dos partos das mulheres maringaenses foram em serviços credenciados pelo SUS, quando a média do Estado foi duas vezes maior (76%). O mais grave, conforme Soares, é que Maringá dispõe de 49 leitos credenciados oficialmente pelo SUS, o que permitiria a realização de 5.880 partos ao ano, ou 490 partos ao mês. No ano passado, apenas 1.639 mulheres maringaenses tiveram acesso aos leitos do SUS para partos. Mesmo assim, a maioria teve que recorrer aos hospitais da região. Conforme dados do comitê, destes 1.639 partos de maringaenses, 935 foram feitos em outros municípios.
Soares também cita no documento os absurdos índices de cesárea em Maringá. Enquanto o Estado recomenda que as cesáreas não ultrapassem 20% do número de partos, em Maringá o índice é de 76,46%. Essa situação é irregular, afirma Soares no texto. O documento foi encaminhado para a Secretaria Estadual de Saúde, Regional de Saúde, Comissão Estadual de Saúde da Mulher, Conselho Municipal de Saúde e Comitê Regional de Mortalidade Materna e para o secretário municipal de Saúde, Ivan Murad. Ao finalizar o documento, Soares diz que os óbitos maternos que vêm ocorrendo são evitáveis e não é possível fechar os olhos para as constantes falhas na assistência obstétrica que acabam por prejudicar as mulheres em um dos momentos mais especiais de sua vida.
À Folha, a assessora do Comitê Estadual de Mortalidade Materna, Vânia Muniz Soares, disse anteontem que a situação em Maringá é absurda. Tanto o coeficiente de mortalidade materna quanto o índice de cesáreas são absurdos e exigem medidas urgentes.
O secretário de Saúde de Maringá, Ivan Murad, disse ontem que não recebeu nenhum documento do Comitê Estadual de Mortalidade Materna. O prefeito Jairo Gianoto (PSDB) também afirmou desconhecer o documento, mas adiantou que o problema é antigo porque os hospitais particulares da cidade não disponibilizam os seus leitos para o SUS. Este problema vai ser resolvido com a Maternidade Municipal, que será inaugurada talvez em março do ano que vem. Conforme Gianoto, a obra virou prioridade em função dos problemas com a falta de leitos do SUS para gestantes. A maternidade terá 66 leitos, o que corresponde ao total de leitos do Hospital Universitário de Maringá (HUM).





