Morretes vai perder o último alambique
PUBLICAÇÃO
sábado, 23 de agosto de 1997
Paulo José Soavinsky 
Especial para a Folha
Morretes
Dirceu MaschioArtesanalÚltima fábrica de aguardente tem todos os equipamentos necessários, mas precisa de investimentos para voltar a produzirMorretes encerra este ano um ciclo da sua história. Os antigos engenhos de cana e mate, que tanta fama e dinheiro deram à cidade, foram deixando de girar suas imensas rodas dágua. Dos cerca de 60 que existiam na época de ouro da produção da mais fina aguardente artesanal (década de 50), apenas 13 alambiques restaram até a década passada, muitos deles já engolidos pelo mato e pelos cupins.
Destes, atualmente apenas um sobrevive: a Fábrica de Aguardente de Frederico Leal Neto, o Diquinho, tocada estoicamente por seu filho Odival Leal, que herdou de seu pai o apelido de Diquinho e o ofício que hoje em dia não lhe dá mais prazer. Uma das irmãs de Leal, Mariles, já admite até fechar o único alambique em condições de funcionamento na região. Sem incentivos, sem apoio adequado, com alta concorrência de produtos industrializados de outros Estados e com uma fiscalização muito exigente não temos mais como operar, afirma. A família até se dispõe a ceder parte de seu patrimônio como área de preservação histórica, para o município, desde que possa manter controle da área e da atividade.
A fábrica de aguardente está em perfeitas condições de funcionamento, tem todos os equipamentos necessários para a produção de uma aguardente de excelente qualidade, mas está parada. A família não tem como forrar com azulejos as paredes do local, reformar telhados e adquirir equipamentos modernos - segundo normas sanitárias -, mas tem todo o maquinário, como roda dágua e outros equipamentos, de madeira, que dão a característica do produto artesanal.
O alambique herdado do pai, morto há seis anos, está agonizando. Tudo em volta da região que vai do Anhaia, passando pelo Mundo Novo até a localidade de Rodeio, onde sempre esteve a fábrica de Frederico, está morrendo. Pelo menos é esta a impressão para quem viveu ao redor dos engenhos, como a família de Diquinho. A Estrada do Anhaia não deu sorte para a região, mesmo sendo no início um caminho margeando o Rio do Pinto, pisado por aventureiros e mineradores, que ali descobriram ouro entre 1648 e 1653, mesmo que anos mais tarde seu risco aberto no verde da Mata Atlântica cortasse as duas principais vias de acesso a Morretes, a Estrada de Ferro - iniciada em 1880, em ato prestigiado pelo Imperador D. Pedro II e aberta em fevereiro de 1885 - e a Estrada da Graciosa, concluída em 1873. Mesmo que, anos depois, em 1968, fosse ligada à BR-277, inaugurada pelo presidente Costa e Silva.


