Edson Guitti



Escalada da morteCaixão com o corpo de José da Cruz deixa o HU para ser velado em casa. O superintendente do HU posa ao lado de faixa de protesto. Maringá só tem UTI em hospitais privados.

Mais dois pacientes morreram, na madrugada de ontem, no Hospital Universitário de Maringá (HU), enquanto aguardavam vagas em UTIs de hospitais conveniados ao Sistema Único de Saúde (SUS). Somente de quarta-feira até ontem, morreram quatro pacientes no HU, que não conta com unidade de terapia intensiva. Neste mês, já são sete os óbitos registrados no hospital por falta de vagas em UTIs. Em 96, cinco pacientes morreram nos corredores do HU por causa disso.
José da Cruz, 57 anos, com broncopneumonia e suspeita de meningite, e Igor Boni, de um mês de idade, com problemas neurológicos, aguardavam vagas em UTI há dois dias. Eles morreram apesar dos esforços da equipe do HU, que tentou, sem êxito, conseguir vagas na UTI dos hospitais de Maringá.
Na última terça-feira, o secretário Estadual da Saúde interino, Fernando Ducci, e representantes do Ministério da Saúde fizeram um acordo verbal com os donos dos hospitais de Maringá para que todos os casos de urgência e emergência do SUS fossem atendidos de imediato pelas UTIs dos hospitais.
Segundo o superintendente do HU, Paulo Roberto Donadio, não houve omissão de socorro dos hospitais. ‘‘Ocorreu que não existiam vagas mesmo. Existe um déficit de vagas para o SUS’’, argumentou Donadio. (Veja texto ao lado sobre o número de leitos). A única saída, segundo o superintendente, seria o Ministério Público intervir e encampar as UTIs de todos os hospitais em favor dos pacientes do SUS.
O presidente do Sindicato dos Hospitais de Maringá, Antonio Carlos do Nascimento, disse ontem que o número de UTIs existentes na cidade não é suficiente para atender a demanda. Ele afirmou que, nos últimos meses, em função dos problemas financeiros enfrentados pelos hospitais, os estabelecimentos desativaram suas UTIs.

Sete pacientes já
morreram este mês
durante espera
por leito em UTI


Nascimento negou que tivesse ocorrido falta de disposição dos hospitais em atender aos pacientes do SUS e afirmou que ontem todas as unidades de terapia intensiva estavam ocupadas. Segundo ele, isto teria impedido os hospitais de atender o bebê Igor Boni e o paciente José da Cruz.
Ele não informou à Folha quantos leitos de UTIs existem em Maringá. ‘‘Estamos fazendo um novo recadastramento para verificar o número real de UTIs’’, explicou. Segundo Nascimento, todos os hospitais de Maringá vem prestando atendimento pelo SUS nos casos que representam risco de vida.
Ele ratificou o compromisso verbal firmado na última quarta-feira, na presença do secretário de saúde interino, de que os hospitais vão prestar atendimento aos pacientes do SUS. Porém, não soube explicar como os hospitais vão garantir o atendimento, já que os estabelecimentos alegam não ter leitos suficiente.
A morte de Igor e de José da Cruz obrigou os membros da comissão formada na última quarta-feira a se reunir novamente ontem. Depois de mais de três horas reunidos, os membros da comissão assinaram um documento que estabelece o atendimento dos pacientes que ‘‘representem risco de vida’’.
De acordo com o promotor Francisco José de Souza, a Polícia Civil está investigando as mortes dos quatro pacientes que morreram anteontem e ontem. Ele disse que a Promotoria de Justiça não tem poder para intervir nos hospitais particulares, como sugeriu o superintendente do HU.

mockup