Morre um dos últimos índios xetás
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 23 de dezembro de 2005
Francismar Lemes<br>Reportagem Local 
Morreu um dos oito índios xetás, tribo genuinamente paranaense, que foi praticamente extinta durante a colonização do Noroeste paranaense. Liderança entre os cerca de 80 descendentes, que atualmente se encontram espalhados (alguns vivem no Posto Indígena de São Jerônimo da Serra), Tikuen que na língua da nação significa menino, nome que manteve até adulto, não passando pelo ritual de iniciação, que lhe ''batizaria'' com outro nome morreu em Brasília.
Tikuen, que tinha 54 anos, estava em Brasília participando de um trabalho de resgate cultural da comunidade indígena, que atualmente vive no posto de São Jerônimo (Norte Pioneiro), com os caingangues. Além da consternação com a morte da liderança indígena, ocorrida domingo, às 14h30, no Hospital Universitário, em consequência de um aneurisma cerebral, a família de Tikuen (composta por oito filhos), ficou indignada com a confusão no translado do corpo, que chegou a Londrina apenas ontem de madrugada.
A responsabilidade de tratar do translado do corpo, que foi levado de carro para Pirapó, na região de Belo Horizonte (MG), era da Fundação Nacional de Saúde (Funasa). ''Fomos informados de que houve o extravio da certidão de óbito e, por conta disso, o corpo demorou para chegar. Além desse problema, a família queria que fosse transladado direto para São Jerônimo, não precisando ser encaminhado para a Acesf, em Londrina'', relatou Edilberto Ribeiro Tostes, assessor do deputado estadual Paulo Campos (PT), que trabalha com questões indígenas. Ele ressaltou que os familiares do índio não tinham condições de vir a Londrina para tratar dos funerais.
A administradora substituta da Fundação Nacional do Índio (Funai), em Londrina, Evelise Viveiros Machado, afirmou que a instituição, em Curitiba, é que decidiu sobre o translado do corpo com a Funasa. Ela confirmou a confusão, dizendo que o erro foi da funerária do Distrito Federal. A Funasa somente se pronunciaria através de uma nota oficial, que até o final da manhã não havia sido enviada à Redação da Folha. A reportagem não conseguiu contato com a funerária.
O primeiro contato dos xetás com a civilização aconteceu durante o avanço da colonização e do plantio das lavouras de café. Há pouco mais de 50 anos, eles viviam no estágio da Pedra Lascada. As atividades da tribo se caracterizavam pela coleta e caça, sendo também grande consumidora de erva-mate.
O contato com os brancos foi violento, mas a etnia ainda guarda tradições culturais. Porém, a língua não foi registrada. Parte dessa tradição pôde ser observada durante o funeral de Tikuen, ontem, às 17 horas, em São Jerônimo da Serra.


