Morre sétimo operário em canteiro da Audi
PUBLICAÇÃO
sábado, 28 de novembro de 1998
Guilherme Vieira 
Um acidente com um bate-estacas causou a morte de mais um operário nas obras de construção da montadora Volkswagen-Audi, em São José dos Pinhais (Região Metropolitana de Curitiba). Segundo os operários este seria o sétimo acidente fatal, enquanto a Polícia Civil admite seis mortes. A vítima de ontem foi o auxiliar de bate-estacas Valmir Dias, 34 anos, casado e pai de duas filhas, funcionário da sub-empreiteira Binepar.
O grande número de acidentes motivou o advogado Edésio Passos a preparar uma denúncia que deve ser encaminhada à Procuradoria Geral do Trabalho na segunda-feira, para apurar as condições dos operários no local. Será uma grande denúncia, que possui aspectos que ainda não podem ser revelados, disse.
Passos afirmou que decidiu entrar com a denúncia depois de ter sido procurado por uma comissão de operários de sub-empreiteiras. Eles denunciaram a ocorrência de sete mortes nos canteiros desde que as obras começaram, em janeiro 1997, que o Sindicato dos Trabalhadores não tem acesso ao local e que os inquéritos policiais sobre os outros acidentes não foram tornados públicos. Pode ser que tudo esteja certo, mas queremos que fique claro, disse.
Segundo o delegado Carlos Eduardo Milano, titular da delegacia do Distrito de São Marcos, salvo engano todas as mortes foram causadas por falha humana ou imperícia.
A Volkswagen-Audi se manifestou sobre o acidente apenas por intermédio de sua assessoria de imprensa. A empresa diz não ter responsabilidade, porque a morte aconteceu no terreno de obras do Parque Industrial de Curitiba (PIC), que vai abrigar os fornecedores da empresa. Entretanto, o canteiro de obras se encontra no mesmo espaço das instalações da montadora.
Sobre as outras mortes, a última há cerca de 40 dias, o assessor de imprensa Charles Magno Medeiros desconversou. Procurem as empreiteiras. A empresa não pode falar por elas, pois nenhum acidente aconteceu com funcionários da Audi. Na empreiteira Benopar os responsáveis não foram encontrados.
As primeiras informações dão conta que Valmir Dias foi atingido pela peça do equipamento que golpeia a estaca. Ele tentava centralizar a estaca, quando o mecanismo de acionamento se soltou, atingindo-o no tórax. Ele morreu no local.
A equipe de reportagem da Folha foi impedida de entrar. O clima entre os funcionários era de tristeza e medo. O ritmo da obra é acelerado e os acidentes acabam acontecendo, mas com a crise temos de baixar a cabeça e trabalhar sem reclamar, disse um operário.
Peritos do Instituto de Criminalística investigaram as causas do crime. Eles devem apresentar laudos sobre o acidente, o estado de conservação do bate-estacas e se os operários usavam equipamentos de proteção.
O delegado Milano, que vai presidir o inquérito, deve apresentar uma conclusão dentro de 30 dias. Chamei pessoas da promotoria e do Ministério do Trabalho para acompanhar o caso, a fim de garantir a fidelidade do inquérito, disse.
Apesar da morte, as obras prosseguiram em ritmo normal ontem, com todos os cerca de 3 mil operários trabalhando. Apenas o bate-estacas permaneceu parado. A Volkswagen-Audi inaugura sua fábrica em janeiro do próximo ano.


