O corpo do sem-terra José Arnaldo dos Santos, 26 anos, atingido com um tiro na cabeça no sábado, vai ser enterrado hoje, 8h30, no Cemitério Municipal de Nova Cantu (120 km ao sul de Campo Mourão). Ele morreu ontem pouco depois da meia-noite no Hospital Interclínicas, de Campo Mourão.
Segundo o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), Arnaldo foi morto foi seguranças da Fazenda Rio Tonete, que está invadida desde o final de julho. O MST espera reunir mais de 5 mil sem-terra da região para o sepultamento de José Arnaldo dos Santos.
Arnaldo morava na região de Nova Cantu, era casado e tinha uma filha de quatro anos. O corpo dele passou a manhã no Instituto Médico-Legal (IML) de Campo Mourão, onde foi retirada a bala que estava em sua cabeça. Só no início da tarde é que o corpo foi liberado. O velório está acontecendo no acampamento dos sem-terra montado entre Nova Cantu e Roncador. Segundo a Polícia Militar, o clima estava calmo, mas havia temor de revolta.
‘‘A situação é delicada’’, admite o capitão Davi Faustino da Silva, comandante da 2ª Companhia da PM, em Goioerê. Durante os três dias em que Arnaldo ficou internado em Campo Mourão, a polícia apurou que poderia haver violência caso o sem-terra viesse a morrer. Por isso mesmo, o comandante do 11ª BPM, tenente-coronel Sidnei Edson Mella, foi ainda ontem para o acampamento tentar acalmar os invasores. Mais de mil famílias de trabalhadores sem-terra estão acampados na Fazenda Rio Tonete, que pertence a Dercy Slaviero.
Os sem-terra acusam a PM de não ter feito nada durante o tiroteio que provocou a morte de Arnaldo. Ontem, a polícia divulgou nota dizendo que o MST impediu a entrada dela na fazenda e que, por isso, não houve como fazer um trabalho de desarmamento. Na delegacia, o inquérito aberto para apurar o caso tem versões diferentes. Os sem-terra contam que foram atacados por um grupo de seguranças da fazenda. Já os funcionários da propriedade dizem que o tiro saiu de uma discussão entre os próprios invasores.
ProntidãoDe acordo com José Fausto dos Santos, um dos responsáveis pela segurança dos acampados, mais de 100 sem-terra estavam trabalhando no preparo da terra quando cerca de 15 homens chegaram atirando. Fausto nega que o grupo estivesse invadindo uma outra fazenda. ‘‘Estávamos trabalhando na divisa da propriedade, por isso há essa confusão’’, explica. A área que estava sendo preparada para o plantio fica a 1.500 metros do acampamento. De acordo com ele, os tiros foram dados de uma distância entre 100 e 150 metros.
A Polícia Militar está com um efetivo permanente na região das invasões - outras duas fazendas estão ocupadas em Nova Cantu. A Fazenda Rio Tonete já teve liminar garantindo a reintegração de posse, mas a PM aguarda ordens do Palácio Iguaçu para fazer a retirada dos invasores.
NotaA direção estadual do MST divulgou nota ontem responsabilizando pela morte do sem-terra o Grupo Slaviero, o poder judiciário, ‘‘pelo descaso com que tem tratado os conflitos no campo’’, o governo federal ‘‘pela falta de ação e ineficiência em promover a reforma agrária’’ e a Polícia Militar, ‘‘que tem atuado na defesa dos latifundiários’’.

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