Morre homem que vivia com coração nas costas
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 02 de fevereiro de 2005
Francismar Lemes<br> Reportagem Local 
Ao contrário das outras pessoas, o coração de Odair de Lima Probst, de 54 anos, passou a bater nas costas após uma cirurgia inédita realizada pela equipe do cirurgião cardíaco londrinense Francisco Gregori, no Hospital Evangélico (HE). Depois de ofecerecer uma sobrevida de quase 10 anos ao mecânico industrial aposentado de Telêmaco Borba (128 quilômetros ao norte de Ponta Grossa), o órgão resolveu descansar.
A técnica ''criada'' por Gregori na hora em que estava pronto para operar Probst está sendo utilizada por um dos maiores cirurgiões cardíacos pediatras, o brasileiro Miguel Marcial, médico do Incor (Instituto do Coração de São Paulo), considerado uma autoridade no hemisfério Sul.
A história do mecânico industrial aposentado é uma daquelas que acontecem nos centros cirúrgicos quando a decisão do médico faz a diferença na batalha pela vida. No caso de Gregori, vem se juntar a outras decisões importantes, como a de ter utilizado cola Superbonder numa cirurgia cardíaca.
De volta ao dia 19 de novembro de 1995, data em que Probst foi transplantado por causa de uma miocardiopatia dilatada, observamos o espanto da equipe cirúrgica - que contava ainda com a participação do cirurgião Celso Cordeiro - ao abrir o peito do paciente: o coração não tinha pericárdio, espécie de capa parecida com uma bexiga, que envolve o músculo.
O pânico da equipe diante da constatação, já que sem o pericárdio o coração não teria sustentação, cedeu lugar à decisão rápida de implantar o órgão do doador, que acabou se acomodando nas costas de Probst.
De outra forma, o músculo cardíaco, ligado aos outros órgãos pelas artérias pulmonares, aorta e veia cava superior, ficaria pendurado como um pêndulo, correndo o risco de, com qualquer movimento como deitar de lado, causar uma torção de vasos da base, cortando o fluxo de sangue, o que provocaria a morte súbita.
Três horas e meia de cirurgia depois, em que uma fração de minutos decidiu lhe dar mais alguns anos de vida, o aposentado saiu do centro cirúrgico, tendo a chance de sentir o coração batendo mais forte - nas costas - por algumas emoções, como o nascimento do primeiro neto de dois anos e meio.
Também conseguiu deixar a casa, na periferia de Telêmaco, ''arrumadinha'', como diz Márcio Adriano Probst, 29 anos, um dos três filhos do aposentado.
Carregar o coração nas costas também tem seu preço. ''Até um certo ponto ele viveu bem, mas depois começou a dar problemas. Após a cirurgia sofreu um pouco por causa de ter que tomar muito remédio para rejeição. A imunidade do meu pai caiu, aparecendo um câncer de pele, dor de estômago, problemas nos rins...'' - lembra o filho Márcio.
Esse novo órgão transplantado, apoiado sob o diafragma e o pulmão para evitar a torção dos vasos, teve que aprender a ser santista - time do coração de Probst, que aguentou firme ao comemorar a conquista do bicampeonato brasileiro em 2004.
Mas nas últimas semanas dava sinais de fraqueza. Probst passou cinco dias na Unidade de Terapia Intensiva de um hospital de Telêmaco Borba até ser internado no Evangélico.
Tudo terminou onde começou é o que se poderia dizer da morte do paciente domingo à noite no hospital londrinense, onde o aposentado permaneceu apenas um dia na UTI. ''Recebemos o telefonema da esposa do Odair, dizendo que ele estava internado em Telêmaco. Conseguimos para ele uma vaga e, depois de um dia na UTI, foi para o quarto. O médico que fez um cateterismo (exame cardiológico invasivo feito para disgnosticar ou corrigir problemas cardiovasculares) chamou a atenção, dizendo que, mesmo totalmente à esquerda, o coração estava funcionando normalmente. O que aconteceu foi que o pulmão fez uma embolia que, apesar de tratada, acabou evoluindo. Odair morreu por embolia pulmonar maciça'', aponta Gregori, lamentando que o coração ainda jovem transplantado em Probst poderia dar-lhe outras alegrias por mais uns 10 anos.
Porém, para a família, esse ''chorinho'' a mais de vida extrapola a decisão da equipe médica tomada em alguns minutos no centro cirúrgico quase há 10 anos. ''Na época do transplante morava longe do meu pai. Há uns três anos voltei a morar com a família. Não posso reclamar de nada. Eu tive a oportunidade de desfrutar a companhia de um pai'', conclui Márcio, um dos filhos de Probst.
O aposentado que, com o seu coração nas costas, ajudou a medicina a dar um novo passo, foi enterrado anteontem em Telêmaco Borba.


