Morre 9º paciente por falta de leito
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 25 de junho de 1997
Marccio W. Varella Maringá 
Marcos NegriniTarde demaisMédicos mostram encefalogramas do pedreiro que teria morrido por demora no atendimento intensivo; Santa Casa culpa sistema públicoMorreu às 7h30 de ontem a nona vítima da falta de estrutura para atendimento hospitalar pelo sistema público em Maringá este ano. O pedreiro José Carlos Módulo, 43 anos, que foi atropelado no sábado, aguardou três dias no Hospital Universitário (HU) por uma vaga em UTI de hospitais conveniados. Ele só foi transferido para a Santa Casa no início da tarde de terça-feira, onde morreu. Se tivesse sido atendido antes, sua vida poderia ter sido salva, afirmou o diretor-clínico da Santa Casa, Florivaldo André Martelozzo.
O pedreiro sofreu traumatismo craniano. Encaminhado ao HU, foram constatados, através de raios-X, hematomas graves extra e sub-dural. Era necessária uma cirurgia urgente para drenar o sangue, que estava empurrando o tronco cerebral para baixo e que poderia causar uma parada cardíaca. E foi o que acabou acontecendo. Ele já chegou aqui quase morto. O caso dele era gravíssimo. Não pudemos fazer nada, disse o chefe da UTI da Santa Casa, médico Sérgio Ricardo Frigério.
A UTI da Santa Casa tem oito leitos para adultos e oito para crianças. Quando Módulo chegou ao hospital, a UTI estava lotada. Foi necessário improvisar duas UTIs numa sala ao lado porque haviam dois pacientes do SUS em estado grave precisando de terapia intensiva. Transferimos dois pacientes menos graves para esta sala e mesmo assim só foi possível atender o José Carlos porque o HU nos emprestou um respiradouro, conta Frigério.
Ontem de manhã, a UTI da Santa Casa de Maringá estava novamente lotada. Vou operar um médico que trabalha aqui com a gente e não teremos onde colocá-lo, pois ele vai precisar de uma UTI, desabafou Frigério.
Trabalhamos o tempo inteiro com 20% acima de nossa capacidade. Já colocamos pacientes no corredor do hospital por causa da falta de vagas, reclama Martelozzo. Para ele, a crise de leitos de Maringá é um retrato da crise do País.
Isto já acontece nos grandes centros há muito tempo. O maior problema é que o governo virou as costas para a saúde. Nem que o governo investisse todo o seu orçamento no setor o problema seria resolvido. O SUS apenas dobraria o valor da consulta de R$ 2,00 para R$ 4,00 e do internamento de R$ 3,50 para R$ 7,00 e isto não resolveria nada.
Em Maringá, segundo Martelozzo, falta uma melhor distribuição de leitos para o SUS. A Santa Casa destina quatro de seus leitos de UTI para adultos e mais 4 infantis ao SUS. Mas há dias em que temos seis ou sete do SUS internados na UTI, diz ele. Dos atuais 80 leitos adultos e infantis de todos os hospitais da cidade, 29 são destinados ao SUS. O maior problema de Maringá é que quase todos os hospitais da cidade são particulares, afirma.
O déficit mensal da Santa Casa em relação ao SUS, calcula Martelozzo, é de R$ 140 mil. A Santa Casa passa por dificuldades financeiras. Temos 175 leitos, mais de 100 médicos e 360 funcionários. As UTIs são o nosso maior prejuízo. Temos que nos virar para não deixar essa dívida se transformar numa bola de neve. Teríamos que diminuir a oferta de leitos para o SUS, mas por uma questão humanitária não fazemos isso.
Martelozzo conta que outra dificuldade são os caloteiros. Tivemos um paciente que foi internado na categoria particular. Ele foi atropelado e ficou aqui mais de um mês. Sua conta ficou em R$ 39.503,91. Até hoje não nos pagou.
Leia mais sobre a crise de leitos na página 3 deste caderno.


